Viver é preciso, trabalhar não é preciso

Fernando Pessoa escreveu: “Navegar é preciso, viver não é preciso” Onde utilizava preciso significando exato; aqui utilizo preciso significando carência, necessidade. Viver é preciso, trabalhar não é preciso.

A sensação de viver é um contínuo desejar e adquirir. Quando não se quer mais nada, é a morte do ser. A vida é um fluxo constante de suprimento de carências, desde a carência fisiológica de oxigênio que leva o organismo biológico a promover o movimento de aspiração de ar, até a carência psicológica de qualquer coisa que leve a ação para obtenção da satisfação.

O sistema fisiológico – a parte animal do ser – é determinado pelas condições genéticas e ambientais, com poucas possibilidades de alteração voluntária; o ser psicológico é muito mais complexo, demanda toda sorte de influências sofridas no decorrer de sua formação psicossocial. Há quem acredite em influências psicológicas anteriores ao parto, durante a gestação. Há ainda, quem acredite em fatores anteriores até concepção.

As necessidades do organismo fisiológico, ressalvados os aspectos básicos de funcionamento interno, são fortemente influenciadas por usos e costumes do ambiente em que desenvolve o indivíduo. Hoje são conhecidos diversos procedimentos desenvolvidos para satisfação das necessidades energéticas do corpo, diferenciados ao longo de situações históricas e climáticas – a alimentação de um esquimó poderia causar sérios problemas no organismo de um beduíno, e vice-versa. Da mesma forma se desenvolveram hábitos diferentes de higiene e vestuário.

As necessidades psicológicas, embora com muita coisa em comum, se desenvolvam de acordo com a percepção de cada um, mesmo em ambientes comuns. Cada um pode ter um ângulo próprio de visão e absorção de significados de um mesmo fato, num mesmo ambiente. Duas pessoas nunca veem a mesma coisa, pois seus mecanismos de percepção e interpretação do fato são diferentes. Daí a possibilidade de indivíduos terem necessidades diferentes a cada momento.

Que dizer então da produção em massa de um objeto que vai atender às necessidades de muitas pessoas? Cabe lembrar que não é o produto em si que vai atender as mesmas necessidades das mais diversas pessoas, mas aos valores que as diferentes pessoas atribuem ao mesmo produto, à expectativa de usufruto, o benefício que se espera obter. O benefício não está no produto, mas na expectativa individual que se desenvolve a respeito do objeto; isso diferencia qualquer coisa para muitas pessoas diferentes.

Tomemos o exemplo simples de um produto quase universal: o sapato. Poder-se-ia dizer que o sapato é uma necessidade fisiológica, atendendo a necessidade de proteção dos pés? Muito raramente. Esse objeto deixou de ser, para muitos, uma luva protetora da sola dos pés contra os percalços dos espinhos e do frio. Basta perguntar a qualquer um: quais os fatores que influenciaram na compra do modelo que estiver usando. Serão tantas as respostas que o pesquisador terá dificuldades em classificá-las. Há momentos em que “bate lá dentro” uma vontade de “não sei o quê”, levando o indivíduo a buscar, numa aquisição qualquer, a satisfação do seu desejo. Esse desejo, normalmente inconsciente, raramente é percebido como um fato ou vontade isolada, enquanto se procura justificar a compra desenvolvendo uma explicação através de uma necessidade racionalizada.

Nosso ambiente social, a civilização ocidental, nos moldes hegemônicos que atingiu o marketing de consumo, sobrecarrega cada indivíduo em particular com um contingente de informações provocantes de satisfação pessoal. Basta passar algum tempo diante de uma televisão, passar as vistas num jornal ou revista, observar qualquer caminho para qualquer lugar, que se vai perceber uma grande quantidade de apelos consumistas. Compra-se até, ou principalmente, coisas que não se conhece e nem se sabe para que sirva. O que importa é o ato da compra, a satisfação em consumir, seja lá o que for.

O desconhecimento da real necessidade, mesmo porque não há necessidade real, mas desejos insatisfeitos, carências, é que leva ao consumo desenfreado na busca de uma satisfação pessoal. Por vezes isso é chamado felicidade. Na busca dessa felicidade, sintonizada no prazer e no poder de consumir, é que se lança a busca de ganhar dinheiro. E o dinheiro só serve mesmo para gastar em alguma coisa.

Enquanto a inteligência do vendedor instiga o indivíduo a gastar, outro mercado, o produtor, instiga o empregado a produzir. Um apregoa o prazer de ter e de poder comprar, outro valoriza a capacidade de produzir. Num mesmo processo competitivo, os extremos se completam. Não houvesse o interesse da venda não haveria o da produção.

Na busca de uma capacitação para compra, na conquista de um poder para consumir, é que as pessoas se empenham tão fervorosamente na tarefa de produzir, que chegam a perder de vista a necessidade inicial. O trabalho passa a ser tão comum e intrínseco no indivíduo que a pessoa não percebe mais que o trabalho fora eleito como um método para se conseguir meios para conseguir realizar um prazer, e não o prazer em si.

Introdução

Enquanto o processo produtivo considera o homem um elemento dentro da massa, não pode exigir dele mais do que isso mesmo. À medida que esse insumo de produção sai do anonimato – e como agente de seu próprio destino tem liberdade para criar e produzir – melhora o processo como um todo através da sinergia das partes. O homem consciente da capacidade e da possibilidade de gerenciar o seu próprio destino, definir sua própria carreira, decidir sobre a própria vida e saber que pode promover a própria felicidade, estará, ao mesmo tempo, criando melhor e consumindo melhor – muito melhor do que se fora simplesmente um ínfimo na massa.

Mens sana in corpore sano, citação tão antiga quanto a cultura ocidental e tão retomada nessas últimas décadas, foi infelizmente tomada pelo contrário. A busca do desenvolvimento do esporte competitivo, mesmo nas modalidades mais individuais, longe de criar uma geração de atletas sadios, desembocou numa neurose obsessiva, provocando estresse e brigas. Não é o corpo sadio que melhora a mente, mas a mente sadia que proporciona um corpo melhor. Toda fisiologia do organismo é regulada pelo poder mental, que, se sadio, pode permitir o desenvolvimento de um organismo equilibrado. O organismo saudável consome mais, produz melhor, relaciona mais satisfatoriamente, promovendo uma sinergia dentro da sociedade em que participa, gerando resultados para todos. Um organismo doente pode contaminar a todos e trazer sofrimentos. Sem dar conta disso, as organizações modernas continuam tanger o corpo, em função da produção e do consumo, sem o devido prover do desenvolvimento da mente que governa o corpo. O próprio treinamento empresarial tem sido físico, voltado para a realização mecânica das tarefas. Parece que o modelo empresarial fora tirado de uma apresentação aeróbica coletiva, donde o líder faz o movimento na frente e todos os outros, uniformemente e uniformizados, repetem em sintonia absoluta todos os movimentos.

De repente, um cameraman consegue captar, dentro do conjunto harmônico, um olhar mais vivo, um corpo que age melhor “por dentro” e consegue chamar atenção. Esse corpo tem mais vida, não é só movimento, consegue se destacar dentre os outros porque tem alma. Na arte do baile se exige que os movimentos tenham “vida”, que expressem algo “de dentro” de individual. A perfeição mecânica do movimento não destaca ninguém; perfeccionistas físicos teem ficado no anonimato dentro do conjunto. Destacam-se os talentos, os que vibram e transmitem vibração.

A empresa moderna não pode perder de vista a individualidade, e nela a felicidade do indivíduo. Uma pessoa feliz será, pelo menos, um problema a menos para a organização.

Conceitos de trabalho

Etimologia

Do latim vulgar tripaliare, martirizar com tripaliu (instrumento de tortura composto de três paus). Depreende-se o conceito original nada animador: trabalho é castigo. Daí dizer que gostar de trabalho ser próprio do masoquista, sentir prazer com o próprio sofrimento.

Conceito judaico

O homem vivia feliz na inocência do seu paraíso, sem qualquer preocupação, sem presente e sem futuro. Tendo desobedecido, foi castigado ao trabalho para sobreviver: “No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó, e em pó tornará “Gênesis 3,19.

Mitologia grega

Sísifo – rei de Corinto – tendo escapado astuciosamente de Tânatos, o deus da morte, enviado por Zeus para castigá-lo, foi levado por Hermes, ao inferno, onde o condenaram ao suplicio de rolar uma rocha até o cimo de um monte, donde ela se despencava devendo o condenado recomeçar incessantemente o trabalho. Em resumo, se não morreu, tem que trabalhar. E o que é bem pior, fazer o mesmo trabalho contínuo e sem perspectiva. É o esforço pelo sacrifício, pelo castigo. Entre os gregos o trabalho enquanto produção material de riquezas era ainda uma atividade delegada aos servos e escravos. As guerras existiam para que houvesse saques de riquezas, captura de inimigos que seriam feitos escravos, ou se fossem de famílias ricas, trocados por resgates.

Império romano

Igualmente a civilização grega, a expansão romana, através das guerras, trouxe à Roma muitos escravos para fazerem o trabalho. Aos nobres, aos patrícios, era reservado o direito de fazer guerra e gozar o ócio. Júlio César não era grande político, no senado romano havia muita oposição ao seu jeito de governar, mas uma coisa era inegável, e isso o mantinha no poder, trazia muitos escravos e muitos saques, enriquecendo o império.

Iniciativa medieval

Com o domínio da igreja católica, com a pregação da igualdade entre os homens, alguns povos deixaram as guerras e os saques, passando a dedicarem muito tempo oração. Em 529, Bento de Núrcia fundava o Mosteiro de Monte Cassino onde estabelecia a ordem Beneditina; sua preocupação básica foi estabelecer um valor para a atividade trabalho aos níveis do valor da oração.

O trabalho é uma oração a Deus“. Foi sem dúvida uma estratégia apreciável para a produtividade necessária, pois tanto o clero quanto a nobreza eram sustentados pelas contribuições voluntárias ou impostas a partir da produção do trabalhador. Fossem os fiéis conduzidos somente para a oração, mais que a devoção hierarquia de poder não haveria quem produzisse o suficiente para a sobrevivência daquela sociedade.

A revolução industrial

De início, as máquinas foram concebidas para substituir com vantagens os movimentos e as possibilidades do esforço humano nas atividades de produção. Noções de física foram utilizadas para substituir a força do braço e a velocidade das mãos. Mas o desenvolvimento tecnológico não foi suficiente para a adequação dos equipamentos aos níveis desejados e a maquinaria é complementada com “recursos humanos”. Medidos com as mesmas medidas, os recursos humanos começam a ser medidos como equipamentos de produção. À medida que as máquinas evoluem, os recursos humanos passam a serem adaptados às máquinas. Logo se constata que os recursos humanos são máquinas imperfeitas dentro das linhas de produção. Surge a necessidade de adestramento do recurso humano para uma produtividade próxima da máquina.

Conforme Peter Drucker

Primeiramente, existe uma dimensão fisiológica. O ser humano não é uma máquina e não trabalha como uma máquina. As máquinas trabalham melhor se executarem apenas uma tarefa, se esta for repetitiva e se for mais simples possível. As tarefas complexas são melhor executadas como uma série, passo a passo, de tarefas elementares onde o trabalho desloca-se de máquina em máquina – seja através de deslocamento físico do próprio trabalho, como na linha de montagem; seja dispondo as máquinas e ferramentas numa sequência pré-estabelecida para o trabalho e mudando o instrumento de cada etapa do processo, como acontece com as modernas máquinas operatrizes controladas por computadores. As máquinas trabalham melhor se funcionarem a uma velocidade constante, a um ritmo constante e com um mínimo de peças móveis. A engenharia do ser humano é bastante diferente. Ele não se adapta bem à execução de uma única tarefa ou de uma única operação. Falta-lhe força. falta-lhe energia, fica cansado. No conjunto, o ser humano é uma máquina muito mal projetada. Por outro lado, ele se sobressai em termos de coordenação. Excede-se ao relacionar percepção e ação. Trabalha melhor se todo o seu corpo – músculos, sentidos, mente – estiver empenhado no trabalho. (…) não existe “uma velocidade certa” ou “um ritmo certo” para os seres humanos. A velocidade, o ritmo e a amplitude da atenção variam enormemente de indivíduo para indivíduo. Estudos com crianças mostram claramente que os padrões de velocidade, ritmo e atenção são tão pessoais quanto as impressões digitais. Cada indivíduo tem, em outras palavras, o seu próprio padrão de velocidade e sua própria necessidade de variá-las; o seu próprio padrão rítmico; o seu próprio padrão de atenção. Nós agora sabemos que não há nada que gere tanta fadiga, tanta resistência, tanta raiva e tanto rancor quanto a imposição de uma velocidade estranha, de um ritmo estranho e de uma amplitude de atenção estranha pessoa e, sobretudo, quando a imposição de um padrão uniforme e invariável destes fatores. Isto é estranha e fisiologicamente ofensivo a todo ser humano. Resulta num rápido acúmulo de toxinas nos músculos, no cérebro e no sangue, na liberação de hormônios de tensão e em alteração na tensão elétrica por todo sistema nervoso. Para ser produtivo, o indivíduo precisa de um controle considerável sobre a velocidade, o ritmo e a amplitude de atenção com que trabalha – da mesma forma como uma criança, ao aprender a falar ou a andar, precisa de considerável controle sobre a velocidade, o ritmo e a amplitude de atenção da aprendizagem. … O que constitui excelente engenharia industrial para o trabalho é, por outro lado, péssima engenharia humana para o trabalhador. (DRUCKER 1981, p. 293,4)

Certamente não foi só a criatividade ficcionista, mas também o senso de observação, que levou Chaplin a produzir “Tempos Modernos”.

Embora todos os recursos materiais e científicos com a disponibilidade de conhecimentos suficientes para um desenvolvimento mais saudável do corpo humano, ainda é muito discutível a qualidade de vida dos trabalhadores, quando por outro lado, se fala tanto de qualidade total de produtos.

Conceito de trabalho na física

Na física, o trabalho é uma medida de resultado (T= f x d). O trabalho (unidade de medida) representa o resultado do deslocamento de um corpo em função da aplicação de uma força. Se a força aplicada ao corpo for igual a zero, independentemente a massa do corpo, o resultado vai ser zero; da mesma forma que por maior que seja a força aplicada, se não ocorrer o deslocamento do corpo, o trabalho será o mesmo zero. Daí depreender que, pelo menos na física, o trabalho não é a força. Esforçar não é trabalhar. Por maior que seja a força aplicada, se não houver uma mudança na localização do corpo, não haverá trabalho; enquanto, por outro lado, um mínimo de esforço que resulte em movimento do corpo será considerado um trabalho realizado.

Tempos atuais

Hoje é difícil dizer o que está acontecendo com as condições de trabalho, pois tantas são as diversificações apresentadas e tantas experiências em curso que, quando divulgada uma notícia e até que esta chegue ao público, o fato em si já não é o mesmo. A própria relação empregador/empregado está em cheque, como todas as demais relações de trabalho. Muitas novidades são maquiagem de velhos procedimentos, enquanto grande parte do empresariado espera o advento messiânico de uma fórmula mais eficaz de produtividade e consequente retorno do investimento.

Algumas tentativas de absorção de procedimentos adotados em outras partes do mundo têm esbarrado nas diferenças culturais que inviabilizam ou diminuem as possibilidades de resultados parecidos com os conseguidos na sua origem. Enquanto isso, na busca de melhor produtividade, acontecem as mais diversas tentativas de melhoria de resultados dos recursos humanos, desde os mais mecanicistas até impensáveis tentativas esotéricas. Coloca-se em cheque a “Administração Científica” que no decorrer dos anos, desde o início do século XX, vem tentando fazer do homem uma máquina de trabalho com resultados previsíveis.

Uma das ideias centrais do Movimento da Administração Científica é que o homem seja um ser eminentemente racional e que ao tomar uma decisão conhece todos os cursos de ação disponíveis, bem como as consequências da opção por qualquer um deles (…) admitindo-se os objetivos do homem assim prefixados, poder-se-ia saber de antemão como reagir, o que facilitaria muito as relações com ele. (MOTTA 1970, p.6)

Reengenharia: De repente, se constata que está tudo errado e não adiantam mais meias medidas na organização – tem que se mudar tudo, fazer reengenharia onde se envolvem mudanças materiais e principalmente pessoais. Começar de novo é mais produtivo do que remediar velhos procedimentos. Até Peter Drucker, um dos mais tradicionalista defensor da administração clássica e conhecido pelas críticas a modelos radicais de renovação, tem apoiado a “reengenharia”. É sinal que realmente muita coisa está errada e tem que se tentar algo diferente. O ponto principal da reengenharia, não cabe aqui fazer toda apresentação do modelo, está no engajamento do pessoal envolvido nas modificações, e isto, é mais importante do que qualquer mudança nos equipamentos e processos.

Questão transcendental

Raramente um teórico do trabalho, pelo menos no nível acadêmico, vai colocar suas opiniões quanto ao aspecto transcendental que envolva o elemento humano e suas relações com um mundo desconhecido. Não se vai poder discutir valores religiosos em qualquer argumentação científica no trabalho, as pessoas, queiram ou não os cientistas, são seres que de alguma forma acreditam em algo transcendental, seja de que ramo religioso isso for. Isso faz diferença; os valores religiosos estão na base de qualquer educação nas mais diferentes culturas. Se não de uma forma positiva de respeito e até amor ao próximo, de uma forma negativa representada pelo medo de um deus castrador, vingativo, juiz implacável, etc.

Com efeito, a experiência dos antropólogos demonstrou, no correr dos anos, o quão absurdas e arbitrárias são as separações do tipo “cultura material/ cultura espiritual”, uma vez que não há objeto que não seja para um sujeito: objeto sobre o qual não se tenham aplicados saberes, crenças, indiferenças; objeto que não pertença a um campo de significação que, por sua vez, remeta a outro. Sob este ponto de vista, as “necessidades primárias” não seriam menos significativas que um poema ou uma sinfonia e a natureza jamais seria apenas “objeto do trabalho”, algo passivo de ser “explorado”, seria ora parceiro de troca a quem se deva reciprocidade, ora ser sexuado as ser seduzido e fecundado, ora entidade poderosa sujeita às variações de humor. (ROGRIGUES 1989, p.117)

Os conceitos de vida, sob influência dos valores religiosos, por menores que sejam essas influências, fazem parte da pessoa que está no centro do projeto produtivo, não é possível isolar isso. No entanto, por mais presente que esteja esta variável, poucos levam em conta quando da elaboração dos projetos de trabalho. É certo que não é fácil a assimilação de tantas tendências religiosas e tantas interpretações de um mesmo princípio, pois mesmo dentro de uma seita existem muitas diferenças, inclusive na mistura dos enfoques de esferas divinas e mundanas. “… daí pois a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 28,21)  Agora, pergunte-se a qualquer cristão, se ele sabe diferenciar exatamente o que cabe a um e a outro.

Questão do modelo

Quando da necessidade de opção por uma carreira especialista, o jovem é obrigado a decidir o que vai “ser” na vida, e acaba por fazer uma opção em função do “fazer” e do “ter”. Se para os adultos a relação com o trabalho ainda não chegou a um dado completo, imagine-se o que pode ocorrer na cabeça de um jovem.

Os testes vocacionais, tão ardorosamente defendidos por alguns, apresentam todas as limitações de uma ferramenta. Serve a propósitos simplistas, raramente levam a uma interpretação segura. O jovem acaba por escolher um modelo, não uma atividade. Os modelos são ancorados no atendimento de uma carência interna que nem sempre é clara o suficiente. Os modelos adultos nunca poderão satisfazer as carências infantis, pois estas promovem tal fantasia que dificilmente qualquer madura poderá suprir de forma como foi idealizada. Érico Veríssimo dizia que a felicidade do homem está na realização dos sonhos do menino que existe dentro dele (os sonhos dos homens são por demais complicados e racionais para que se consiga satisfação). O indivíduo tem uma sensação de falta qualquer, ou específica, e para supri-la opta pelo desenvolvimento num determinado papel social. Na realidade não é função social ou profissional que vai satisfazer a carência inicial, mesmo porque ao longo dos esforços para chegar lá, podem surgir outras carências maiores e desaparecer, sem que se perceba a carência infantil. Mas supondo se que permaneça a carência inicial, essa vai demandar um esforço para reconhecimento de atos e realizações que convirjam para satisfação delas.

É comum, por uma questão de modelo idealizado, a criança optar por ser um professor “quando crescer”. Permanecendo com essa meta, cresce e se forma. Agora é um outro momento, são outros valores, são outras leituras de um mundo percebido com olhos diferentes. O registro da meta sempre é lido só pelo título “ser professor”, sem abrir a pasta e buscar quais as sensações e realizações pensava obter ou realizar em sendo professor (eleito naquela visão infantil). Aí a sensação de vazio com um diploma na mão. As carências infantis, determinantes do modelo idealizado “professor”, podem não ser atendidas pela realização do adulto. Na verdade, não é “ser professor” que demandou a escolha, mas alguma coisa intrínseca, uma sensação que envolveu um fato, a forma como entendeu uma informação, uma percepção individual que pode estar perdia nos registros da memória infantil. Tal evento pode até não mais ser entendido se for visto com os olhos do adulto de agora.

Em outra situação, igualmente desastrosa, o indivíduo tem nítida sensação original, sabia o que queria, mas percebe que os conceitos aprendidos na época foram distorcidos das possibilidades reais; agora percebe que tudo que fez não vai permitir aquela realização projetada.

O trabalho não é o modelo idealizado, mas o pagamento que se faz em tarefas para realização do modelo. Ninguém escolhe o trabalho, escolhe o modelo idealizado. O trabalho é o empreendimento, enquanto construção das condições para realização do modelo. “Ser professor” denota toda uma áurea de mestre, um foco central de palco, uma doação intelectual, valores quaisquer que o jovem estudante assimila como sendo as características de um professor e acaba escolhendo isto como modelo. O trabalho, por outro lado, serão as atividades rotineiras, repetitivas, cansativas, obrigatórias, penosas, tudo enfim a que o professor é levado a executar para chegar ao fim objetivado de ser o professor.

Um modelo escolhido para direcionar a vida, decisão geralmente tomada na infância ou adolescência, não considera os percalços, apenas as aparências, daí as grandes decepções do adulto com os seus sonhos de criança. A criança quer algo e não sabe o preço que tem que pagar – o trabalho é o pagamento do preço do modelo idealizado, mas nunca é idealizado o trabalho em si.

Chuang-tzu, um discípulo de Confúcio, um dia estava pescando no rio P’u. O príncipe de Ch’u mandou dois altos funcionários lhe perguntarem se ele assumiria a administração da herança de Ch’u. Chuang-tzu ignorou-os e continuou pescando. Pressionado a dar uma resposta, ele disse:

Ouvi dizer que em Ch’u existe uma tartaruga sagrada, morta há 300 anos; o príncipe mantém a tartaruga numa arca sobre o altar do templo dos seus ancestrais. Pergunto a vocês: essa tartaruga preferiria estar morta sendo venerada, ou viva e arrastando seu rabo na lama? Viva e arrastando seu rabo na lama – os funcionários responderam prontamente. Vão embora! Disse Chuang-tzu, Eu também arrastarei meu rabo na lama. (MANDINO 1968, p.60)

Felicidade

O que é que isso tem a ver com o trabalho? Em nossa sociedade tem tudo a ver; é através do trabalho que o homem tem procurado a felicidade. Se é que vai encontrar, “são outros quinhentos”. É praxe associar felicidade a uma casinha no campo, na beira de um lago ou na praia, com um coqueiro do lado; ou até uma ilha ou montanha particular. Mas tudo é um sonho de quem, na realidade, não vai conseguir nada disso, pois todo seu tempo é dedicado para “investir” numa realização futura. Investir, nesse caso, quer dizer trabalhar muito, para um dia poder “gozar a vida”.

Muitas agências de turismo vivem de um bom filão do mercado, a terceira idade. Velhos, que trabalharam a vida toda, fizeram um bom “pé-de-meia” e agora podem passear, ou melhor, só lhes resta passear. Na maioria dos casos, não podem usufruir da comida regional (o organismo não aceita), não podem deliciar a paisagem (a visão está prejudicada), apresentam limitações para andar, subir e descer, não aguentam o sol, não suportam o frio, etc., etc. Deveriam ter procurado esses gozos enquanto ainda pudessem, realmente, gozá-los. Como diz a velha canção (The End), ” … no fim da estrada você vai encontrar nada”. A vida está pelo caminho; no fim, a morte.

Um professor universitário, doutor em química, com 36 anos, sofreu um infarto e foi parar na UTI do hospital universitário. Passado o perigo maior, entrando em fase de recuperação, quis saber do médico quando poderia voltar ao trabalho. O médico perguntou quando tivera gozado suas últimas férias.

-Bem… antes do vestibular, porque depois vieram as aulas na faculdade, os cursos de férias, os estágios, a pós-graduação, as monografias, as teses, as palestras, os cursos fora, …

O médico interrompeu o relato e determinou um afastamento mínimo de seis meses de todas as atividades profissionais, alertando risco de vida.

Recuperado clinicamente, fez sua primeira viagem de recreio ao Nordeste. Depois do estresse inicial da viagem, das curiosidades naturais, dos programas “empacotados”, sobrou o ócio de observar o tempo passar. Como era fora de temporada, o movimento de turistas era muito pequeno. Estando num quiosque, tomando uma cerveja, só restou conversar com o dono do bar. O homem estava desgostoso da vida, queria vender tudo e mudar de negócio. Por não ter coisa mais importante para fazer, entrou no mérito da questão e começou fazer os cálculos daquele negócio. Surpreendeu-se ao constatar que aquele homem rude sem maiores instruções, ganhava, vendendo bebidas e salgadinhos, quase o salário do doutor professor com 30 anos de estudos, e estava reclamando da baixa temporada.

O salário de professor universitário não lhe permitiria gozar 15 dias por ano, de férias naquelas praias, mas aquele negócio lhe permitiria viver ali o ano todo. Vendeu um carro e comprou o ponto. De doutor em química passou a vendedor de pinga; trocou a beca pela bermuda. De quebra pegou algumas aulas na universidade local (só Segunda e Terça). Corrigiu uma vida dedicada ao trabalho para um trabalho que lhe permitisse viver.

Abolição da escravatura

Antigamente alguns homens eram condenados, por nascimento ou aprisionamento, ao serviço escravo ou servil; pertenciam ao outro, não tinham a liberdade de ir e vir, de escolher o próprio destino, e nada tinham – eram escravos. Aconteceram revoluções, tais como a Francesa; guerras, tais como a da Sesseção; leis, tais como a Áurea, promovendo a liberdade do indivíduo. Hoje, com raras exceções, o homem só é prisioneiro de sua própria mente, de seus preconceitos, de seus valores. Por mais que sofra, por menor que sejam suas atitudes liberais, condiciona-se a só permitir o que seus conceitos consentem.

Não é o patrão que escraviza o seu empregado, como tendem a alardear muitos teóricos, é a própria mente. O homem de hoje é preparado, pelo interesse hegemônico do marketing, para ser um vencedor, onde vencer é conquistar a capacidade de consumir, a possibilidade de ter. Aí o homem “vende sua alma ao diabo”, condiciona a sua mente que somente poderá ter reconhecimento, enquanto viver e depois de sua morte, pelas conquistas materiais, pela quantidade que conseguir ter, mesmo que para isso, se é que possa parar para pensar nisso, tenha a disponibilidade de pensar em si e no seu ser.

O homem é prisioneiro de si mesmo e isso não vai mudar. O que pode ser mudado é um conjunto de valores apreendidos pelo indivíduo no processo educacional e social.

Quando criança, fui escravo de meus impulsos; agora sou escravo de meus hábitos, como todos os adultos. Rendi minha vontade própria aos anos de hábitos acumulados e os feitos passados de minha vida já traçam um cominho que ameaça aprisionar meu futuro. Minhas ações são ditadas pelo apetite, paixão, preconceito, avidez, amor, medo, ambiente, hábito, e o pior de todos os tiranos é o hábito. Se, portanto, devo ser escravo de hábitos, que seja escravo de bons hábitos. (MANDINO 1968, p.60)

Conforme Og Mandino, o que mais aprisiona o homem são seus hábitos. Os hábitos, formados através da repetição de procedimentos a partir de uma aprendizagem consciente ou não, vão enraizando-se até ser impossível removê-los, pois criam um lugar próprio na vida. A única solução é substituir um hábito por outro, o que, a bem da verdade, é bem difícil.

Liberdade, então, passa a ser a possibilidade de trocar conceitos, transitar por valores, rever aprendizados, mudar objetivos. Não são os atos em si que contam, mas a forma como se entendem e se valorizam as atividades.

Antropologia

Discutir o trabalho dentro do enfoque antropológico seria rever toda a antropologia em si. Somente para um registro rápido e representativo, transcrevemos este recorte, sobre uma estrutura social fora dos parâmetros a que estamos acostumados:

Sociedade como esta que estamos considerando não têm as nossas razões para trabalhar-se é que entre elas se encontra algo parecido com o que faz o burocrata na repartição ou o operário na fábrica, comandados pelos administradores, pela linha de montagem, pelo relógio de ponto, pelo salário no fim do mês. “Trabalham” para viver, para prover as festas, para presentear. Mas nunca mais que o estritamente necessário; a labuta não é um valor em si, não é algo que tem preço, que se oferece num mercado; não se opões ao lazer, dele não se separando cronologicamente (“hora de trabalhar, trabalhar”); não acontece em lugar especial, nem se desvincula das demais atividades sociais (parentesco, magia, religião, política, educação, … ) Sempre que se pareçam com o que chamamos “trabalho”, tais atividades são imediatamente detestadas. Aliás, no fundo, não o são também entre nós. (ROGRIGUES 1989, p.100)

Qualquer busca rápida nos estudos antropológicos vai apresentar diversos casos em que o trabalho talvez seja a relação mais diferente das assumidas culturalmente pela civilização ocidental moderna. Os níveis e padrões de necessidade, assumidos culturalmente na sociedade moderna, refletem o consumo muito mais simbólico até mesmo do fisiológico, até nas mais básicas necessidades alimentares. Basta comparar até mesmo países ocidentais desenvolvidos: “Não se pode confiar em quem come fígado no café da manhã” – dizia um norte americano enquanto comia bacon com ovos e cereais, como se fosse a sua refeição a mais natural do mundo.

Longe de ser uma atitude racional, pela ponderação de valores nutritivos, ou emocionais pela satisfação de desejos ligados ao sabor e a estética, revestem todos os procedimentos alimentares de um valor simbólico cultural. Mesmo quando o poder aquisitivo é mínimo, este é voltado para o consumo de valores padronizados culturalmente pelos interesses do poder hegemônico do marketing. Enquanto se pensa que se trabalha para comer, grande parte da população trabalha para consumir o que outros querem ela que coma.

Sociologia

Para uma abordagem sociológica, se faz necessária uma especificação acadêmica do tipo de estudo sociológico que se pratica:

O estudo científico da sociologia é o fenômeno sociológico. Fenômeno é um evento observado sensivelmente por meio de percepção exterior e, excepcionalmente por meio de introspecção. (MOTTA 1970, p3)

Estudando o comportamento da massa através de pesquisa de campo e instrumentos matemáticos, alguns cientistas sociais vêm firmando teses de normalidade em procedimentos humanos. É bom lembrar que o conceito de normalidade compreende aquela faixa dentro de menos um e de mais um desvio padrão da amostra pesquisada. Não se consideram juízos de valores, apenas retratos a partir da tica do pesquisador. O sociólogo pode encontrar normalidades diferentes mediante estudo de frequência de alguns procedimentos em amostras diferentes de massas. Nunca pode estabelecer o “certo ou errado”, apenas o que é mais frequente, mais normal.

Pesquisando o comportamento da massa como objeto em si, não se tem como preocupação o porquê do ser, mas o resultado que apresenta socialmente em massa. Daí se estudar apenas o comportamento do homem perante o trabalho quanto a sua produtividade, sem discutir se o homem foi realmente constituído para o trabalho.

Aristóteles já dizia que o homem é um animal social (zoon politikon), logicamente referindo a suas observações na sociedade já estruturada de sua época.

Há menos de um século, e isso é tão pouco tempo perante a idade da civilização, ninguém podia pensar na possibilidade real de eventos tais como: uma viagem em velocidade ultrassónica; de transmissão de imagem instantânea para outro lado do planeta, e até para fora dele; e coisas mais que não paramos para pensar, e quando tomamos conhecimento, pouco atentamos para os efeitos disso no homem enquanto um ser.

A sociologia não faz juízo de valores, não se preocupa com o ser, mas com o indivíduo, que é o ser sujeito sociedade. O objeto de sua preocupação não é a pessoa, mas o conjunto desses elementos do corpo maior, o resultado da adaptação do organismo menor ao sistema orgânico maior – a organização.

Uma organização formal, para poder funcionar como uma alta unidade coesa, necessita não apenas da distribuição do poder e da legitimidade da autoridade, mas espera que cada membro da organização se identifique com os propósitos e com a atividade a desempenhar. Esta identificação é vista como uma “fusão” do indivíduo com a organização. O indivíduo encontra satisfação no seu desempenho profissional, desde que suas atividades e relações com os outros contenham um alto grau de identificação. (…) Quando existe identificação com duas organizações, emerge no indivíduo um conflito intrapessoal que pode redundar no seu desempenho profissional. (FERRARI 1989, p.344)

Percebe-se no texto a redução do elemento humano da sua capacidade de ser independente do ambiente e do envolvimento no processo imediato. É uma crença muito limitante da capacidade que possa ser desenvolvida para um melhor aproveitamento da vida; é como se o ser humano fosse criado e condenado a uma dedicação exclusiva. Há um pensamento que o homem fora feito somente para ser produtivo na organização, e nada mais.

Psicologia

A psicologia social tem procurado entender os comportamentos do indivíduo nas instituições enquanto reflexo das pressões ambientais. Nem melhor, nem pior, apenas a constatação da formação de uma personalidade adaptada ao meio. Qualquer “anormalidade”, ainda dentro dos conceitos estatísticos, merece cuidados de correção. Tanto é que se alguém resolver deixar de trabalhar como todos os outros, fatalmente o primeiro rótulo a ser atribuído será o de loucura, ou coisa próxima a isso.

Muitos teóricos da psicologia, sejam quais forem suas escolas, quando estudam o comportamento como base referencial do ser, esquecem que o comportamento e as atitudes foram inevitavelmente apreendidos socialmente e que aquilo que observam como o ser em si está comprometido com tudo que lhe foi oferecido no decorrer da aprendizagem. Antes de “psico-logia”, a lógica do espírito, esta ciência se tornou a lógica do comportamento, das manifestações físicas, reflexo das informações, das pressões e dos limites impostos pela educação tão intencionalmente voltada para a formação de produtores e consumidores conforme os interesses econômicos.

A pesquisa do comportamento chega, por vezes, às raias do ridículo onde invés de estudar as possibilidades de melhoria mental, apenas constatar o que há de pior no comportamento manifesto, resultado de um condicionamento deliberado. O cientificismo de alguns pesquisadores voltados para observação do comportamento nada ajuda quanto às possibilidades de felicidade do homem – felicidade não é um dado possível de medidas estatísticas.

Conforme Fernando Sabino, em A Cidade Vazia:

Não mecanizaram somente as funções, mecanizaram também a consciência … sua consciência é um fila de padronizadas opiniões muitas vezes contraditórias que a vida moderna industrializou… Há em tudo isso uma aparente sabedoria de viver que me parece encobria a mais patética das aberrações.

Filosofia existencial

Conforme disse Sartre “o ser humano é o único que precede a essência”. Pois enquanto qualquer outra coisa é primeiro concebida na essência, na plasticidade, na utilidade, na finalidade, o homem é o único que é senhor do seu próprio destino. O homem se faz, enquanto as coisas são feitas. (SARTRE 1973)

Tratar o homem, dentro da organização, como coisa feita, preparada para atos definitivos, é coisificar o homem. A maioria dos problemas encontrados na organização acontece em função do tratamento coisificado do elemento humano.

Sartre ainda diz: “o homem está condenado liberdade”. No momento em que a empresa, a escola, o governo, planejam utilizar comportamentos dos homens para atingir os fins da organização, sem levar em conta a essência de liberdade, promove um desequilíbrio, no homem ou na empresa, por encaixar fenômenos onde cabe um objeto.

A liberdade é o pressuposto básico da existência do ser. A liberdade, como diz Marilena Chauí, é o poder de criar o possível. Esta liberdade pode ser utilizada pela organização quando se permite que aí se realize o possível de cada um.

Ética

Para discutir o ser dentro da organização, se faz necessária uma revisão nos conceitos éticos relacionados ao homem e instituição. Dos gregos veio o conceito de que a ética somente era possível na política, uma vez que na vida privada o poder era despótico. Enquanto o chefe da família tinha o poder absoluto sobre a vontade e a vida daqueles que considerava sua propriedade, na vida política o poder era constituído por lei que representava a vontade coletiva. A lei submete o poder.

Na Idade Média o poder emanava do divino, não mais da lei; o homem era predestinado a servir o senhor, por origem de nascimento ou por aprisionamento.

Com o advento da burguesia, surge o individualismo. O homem passa a ter a liberdade de viver uma experiência pessoal, surge o conceito de autonomia. O homem passa a ser o centro do universo a partir do momento em que tudo depende do pensar – “penso, logo existo”. Ainda com Descartes se discute a liberdade como sinônimo de livre-arbítrio que proporciona a autonomia.

No nascedouro da burguesia já surge a crítica que levanta a impossibilidade de uma vida burguesa. Thomas Hobbes em Leviantã, apresenta o homem como o lobo do homem, inviabilizando a vida em sociedade; diz que a burguesia é um projeto inexequível, utópico. Mas o indivíduo burguês não vivia sozinho, nem somente com seu vizinho; com a queda dos déspotas houve a necessidade de constituição de um governo baseado no contrato social. Surge o conceito de Contrato Social, onde o indivíduo entenda o outro lado da liberdade e possibilite a vida social. É a liberdade com responsabilidade pelo respeito aos limites entre a vontade própria e o direito do outro. É um contrato na medida em que estabelece parâmetros de comportamento e consequentemente de liberdade.

O poder constituído começa a apresentar conflitos, pois a nova identidade não estava consolidada; não era mais divino, era humano. Mas o humano está sempre em transição (não é estático), vive redefinindo seus objetivos:

– a moeda que sempre fora o objeto de troca, passa a ser o objetivo em si mesmo – acumulação de capital;

– poder, antes centrado na nobreza e no clero, para as mãos dos detentores da riqueza – o poder econômico. A sociedade passa a se constituir de uma divisão social entre os desiguais;

A liberdade que permitiu a transição do poder, passa a ser uma ameaça própria estabilidade do poder. A manutenção da ordem não é mais ética, passa a ser a defesa da propriedade, da manutenção do poder econômico.

Em Maquiavel, a ética fica restrita ao campo social, a esfera social, não na política. A esfera política passa a ser uma relação de força, que só é refreada pela qualidade da lei. Não é mais a ética que dá origem lei, mas os interesses do poder econômico.

Desenvolve-se o conceito de pátria. Soldados que antes eram mercenários, profissionais da guerra, lutavam em troca de dinheiro, passam a ser recrutados entre os pobres, os sem terras, os sem tetos, e lançados ao campo de batalha para defender os interesses da pátria (os interesses econômicos, da classe dominante).

O mesmo espírito se tentou implantar na organização. O amor pela empresa, o vestir a camisa, a dedicação.

Com tantas situações novas em tão pouco tempo, dentro do percurso da história da civilização e com desenvolvimento tão rápido das informações, o homem comum fica no meio dum processo confuso, pois a nova liberdade, enquanto alivia o peso dos grilhões, aumenta a pressão mental.

O homem é um todo complexo. Não é um ser natural, ritmado nas condições de causa e efeito como todas as demais situações da natureza. Enquanto pensante, sujeito do próprio destino, escolhe seus fins. Não está sujeito ao determinismo natural.

Os homens, enquanto iguais em função da liberdade, apresentam muitas diferenças quanto às possibilidades reais no uso da liberdade. A sociedade é feita de uma divisão social entre os desiguais.

Dessa situação restou o poder econômico – hegemônico, sobrepujando a ética e a natureza.

Na relação “empregado-empregador” não é difícil pré-estabelecer a relação de domínio. A liberdade fica comprometida porque os limites não são mais fronteiras físicas, mas compromissos mentais, com valores estabelecidos pela classe dominante.

Reflexão

Desde a antropologia, muito voltada para estudos de sociedades perdidas ou radicais, passando pela sociologia, voltada para a organização como um todo, até a psicologia dedicada ao comportamento manifesto, todas, em maior ou menor grau, têm deixado um pouco de lado o que acreditamos ser o estudo da maior importância – a unidade, a matéria básica a ser considerada. Por maior que seja a sociedade, a organização, o princípio é uno. Qualquer grupo é constituído de um mais um, mesmo que tenda ao infinito.

Mesmo o todo poderoso marketing global, o marketing das grandes organizações não prescinde do enfoque mais elementar – conquistar e manter o cliente. É do cliente que depende a decisão inicial da aceitação do produto. Não existe o todo sem que se considere cada um. Mesmo quando a maioria já é condiciona a seguir os outros, o marketing procura trabalhar em segmentos específicos de mercado, entre os mais iguais dentre as pequenas diferenças – os mercados e produtos diferenciados.

Uma nova visão – a de que o homem é o centro de qualquer empreendimento – começa a imperar. A mudança vem evoluindo graças a uma série de descobertas, inclusive no campo antropológico – entre elas a de que a qualidade de vida do homem ocidental vem se deteriorando cada vez mais, e isso exerce, pelo menos a médio e longo prazos, uma grande influência no desempenho das empresas. Ou seja, quando pior a qualidade de vida do homem, tanto pior tende a ser o desempenho da empresa. (MOTTA 1970, p.3)

As instituições todas devem ter uma perspectiva de mercado consumidor saudável, de pessoas felizes e francos consumidores, pois mesmo que seja uma indústria de remédios, de pouco adianta a produção se o consumidor não tiver vontade de viver e ou a possibilidade de consumir.

Considerações finais

Faz-se necessário ver o homem como um todo e não apenas como uma máquina a ser preparada para o trabalho, ou pior, uma máquina que está preparada para o trabalho. O tamanho do homem é a amplitude do seu universo mental, não é só corpo, nem só a mente, nem só os reflexos condicionados, nem só os rótulos resultantes de pressões culturais. O desenvolvimento do homem para uma tarefa qualquer, seja o trabalho qual for, desde um “dever de casa” na escola primária, até uma “campanha internacional” para um executivo, deve levar em conta os valores intrínsecos da pessoa.

É sabido que se podem mudar valores, não só os próprios como também os valores dos outros. Quando há interesse que uma criança faça alguma coisa num determinado momento, pais e professores podem recorrer a manipulações psicológicas emocionais, bem conhecidas como chantagem, para atingir o fim imediato. No entanto, essas pequenas e contínuas abordagens podem resultar num indivíduo neurótico, inseguro, dependente das opiniões afetivas dos outros. O autoconhecimento, por outro lado, é o desenvolvimento da personalidade baseado em reflexão de valores a serem apropriados e perseguidos através de objetivos individuais, ao invés de assumir posições alheias pura e simplesmente.

A isso se perguntaria: não estaríamos criando uma sociedade de indivíduos sem coesão? Muito pelo contrário. A dificuldade das pessoas em se comunicarem, se relacionarem melhor, está muito no desconhecimento de si próprio, nas incertezas das próprias possibilidades, o que inibe iniciativas e realizações. Conscientes do valor de troca existente na sociedade, sejam quais forem os conceitos adotados, o indivíduo vai poder se integrar no mercado de trocas, poder participar, poder contribuir, tanto no campo afetivo quanto comercial.

Dono do próprio destino, o indivíduo sabe que para conseguir que as coisas sejam feitas por outras pessoas, dentro da sociedade de consumo em que vive, tem que negociar a troca em termos de valores e vai procurar aprender o melhor jeito de negociar essas aquisições. Saberá que a melhor forma de conseguir dinheiro (o veículo para aquisições), será a prestação de serviços que interessem e que sejam valorizados por outras pessoas. Saberá que quanto melhor for o serviço prestado, maior será o retorno financeiro. Ciente da rede de negociação, sem esquecer a razão de tanto trabalho, reverterá o resultado financeiro em aquisições ou realizações para realização de suas carências primordiais.

Viver é preciso, trabalhar não é preciso.

 

Obras Citadas

DRUCKER, Peter F. Fator humano e desempenho. São Paulo: Pioneira, 1981.

FERRARI, Afonso Trujillo. Fundamentos da sociologia. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

MANDINO, Og. O maior vendedor do mundo. São Paulo: Record, 1968.

MOTTA, Fernando C.P. Teoria da administração. São Paulo: Pioneira, 1970.

ROGRIGUES, José Carlos. Antropologia e comunicação. Rio de Janeiro: Espaço e tempo, 1989.

SARTRE, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril (os pensadores), 1973.

 

Navegar é Preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.
Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa


Trabalho apresentado em 1994 na conclusão da formação em psicologia organizacional

 

 

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