Num desses Endipe (Encontro de didática e prática de ensino), em Lindóia, não me lembro do ano, Prof. Dr. Milton Santos, o geógrafo, reclamava da obrigação acadêmica da produção constante de texto novo para publicação e se dizia solitário no seu saber por não ter quem discutir os textos que ele produzia. Seus alunos, então discípulos, aceitavam tudo e nada acrescentavam; seus rivais, não liam o que ele escrevia, e se lesse não comentaria só para não valorizar o inimigo. Não sei se é por isso que a maioria dos textos tenta provocar os adversários para uma contenda literária; há mais textos discutindo os “erros” dos outros do que mostrando as próprias “verdades”. Alguns textos são preparados para provocar o outro que entende muito do assunto, outros são respostas a provocações específicas. A discussão focaliza filigranas que só os mais especializados no assunto podem ter noção do que se trata; mas não creio que tenham alguma utilidade para o neófito, o iniciante, o curioso, o estudante. Ora, se não serve para o público, por que publicar? Poderia ser uma correspondência trocada entre pares.
Não se pode dizer que eu seja novato nas letras, afinal são 62 anos de vida, e metade disso passados nas escolas formais, outro tanto na escola da vida. De primário, ginásio e colegial, foram onze anos de escola. Na graduação foram três anos de pedagogia em três escolas diferentes, um em administração e cinco anos na psicologia; nove anos, com mais onze, são vinte anos. Depois nas especializações: um na Didática, outro no Ensino Superior em Saúde, dois em Sexualidade, mais quatro, somam vinte e quatro. Depois dois de mestrado em mais quatro de doutorado, são agora somam trinta anos de estudos formais. Nos intervalos das escolas e concomitantemente também, ocorreram estudos de aperfeiçoamentos e especializações profissionais, mais algumas curiosidades literárias ou exotéricas e coisas tais. Também não se pode dizer que eu tenha algum rebaixamento cognitivo, afinal foram duas medidas de QI (Binet-Stanford), uma aos 20 anos, com 169 pontos, outra aos 40 com 149 pontos, pode ser que agora, passados dos 62, o escore esteja abaixo dos 129. Sempre passei nos concursos em que me meti, nunca fui demitido das empresas em que trabalhei.
Mesmo assim a literatura científica ainda me faz sentir um néscio, mesmo depois de dez anos estudando metodologia científica e dando aulas, posso imaginar então o que pode passar pela cabeça de um iniciante em pesquisa científica. Não é uma questão de vocabulário, pois uma consulta ao glossário poderia resolver, mas da rede de intrigas, da cascata de discórdias que se estabelecem nas referências bibliográficas. O autor diz da opinião de alguém como se o leitor (eu e você) tivesse a obrigação de já ter lido, entendido e tomado partido de filigranas como se o mundo dependesse delas para existir: Kant, Spencer, Newton, Descartes, Einstein, Foucault, Deleuxe e Gatari, Freud, Jung, Malinowsky, Geertz, Latour, Durkheim, Mauss, Tarde, Marx, Weber, Barthes, Boaventura, Darwin, Hobbes, Perrenout, Laplantine, Maslow, Rabinov, Ricoeur, Shopenhauer, Demócrito, Sócrates, Platão, Arquimedes, Galileu, Copérnico, Pasteur, Nietsche, Habermas, Bourdieu, Hegel e Engels, Husserl, Mead, Montaigne, Spinoza, Comte, Bachelard, Boas, Canguilhem, Dewey, Lévi-Straus, Rousseau, Popper, Leibniz, DaMatta, Velho, Ribeiro, Chomsky, Vigotski, Poicaré, Saussure, Whitehead, … E tem mais, ao pular de um para outro na busca do entendimento, sempre se tem mais outro adiante a ser perseguido. “A verdade não adquire seu pleno sentido a não ser ao termo de uma polêmica. Não poderá haver uma verdade primeira. Apenas existem erros primeiros” (BOURDIEU 2004).
Nada contra a contenda, a discussão de experiências que se complementam, ou se anulam. Na ciência não existe a verdade, mas a última publicação, a última opinião conceituada que fica à espera de quem possa discordar ou complementar. Não seria isso matéria de discussão entre pares? Entre quem possa participar da contenda? Por que eu? Por que o aluno que pela primeira vez toma contato com a matéria?
Já vi muitos professores universitários condenarem a leitura da coleção “primeiro passos”. Ora, cabe lembrar a sabedoria milenar de Lao Tsé, “Uma longa viagem começa com um único passo”. Ora, diríeis, o doutorando não pode reclamar da revisão da literatura, é uma obrigação acadêmica. Certo, a revisão da literatura no seu campo de estudos, mas não da literatura acadêmica mundial, eclética, ecumênica. O psicólogo não precisa dominar a filosofia, a sociologia, a história, a biologia, mas alguns orientadores acham que seus discípulos devem dar conta de todas as áreas do conhecimento. Certo que seja necessário ter conhecimentos básicos de filosofia, sociologia, história e biologia, para contextualizar o seu objeto de estudo que vive envolvido em tudo isso, mas não precisa ser especialista em drosophila melanogaster (não entendo porque nunca esqueci esse nome, tendo esquecido tantas coisas mais importantes na vida).
Foi-me muito útil assistir a última parte de uma arguição de pós-doutorado quando alguém da banca inquiriu a postulante o porquê de não ter utilizado Foucault no seu texto. A resposta foi magistral (a meu ver): “Eu teria que nascer mais duas ou três vezes, para dar conta de ler e entender o que Foucault produziu. Ler eu li, utilizar na minha tese é que não foi possível para mim. Eu só sou uma médica psiquiatra trabalhando com o sofrimento de mulheres, não sou uma socióloga, nem filósofa, nem historiadora. Até gostaria de poder ser, mas não sou”.
Agora cá estou, psicólogo tentando fazer uma pesquisa etnográfica, no meio do fogo cruzado dos papas da antropologia. Parece que não há uma forma de dizer algo satisfatoriamente sem recorrer a divergências e críticas. Pouco se escreve dos procedimentos internos, dos bastidores, dos processos em que se engendram realmente o conhecimento. Eis-me aqui fazendo críticas, para não sair do ritmo.