1. Introdução
A comunicação enquanto prática de relacionamento social, é muito vasta e repleta de especificidades, à medida em que se diversifica. Vamos nos ater aqui à atividade escolar do estudante universitário que precisa apresentar um trabalho em classe, ou até o Trabalho de Conclusão de Curso.
Ao estudante é solicitado apenas relatar o que foi encontrado na pesquisa de iniciação científica, o que leu, o que aprendeu e as dúvidas que ficaram. A avaliação é restrita ao processo de aprendizagem, embora alguns professores insistam em conseguir verdadeiras teses para seus alunos.
Antes de seguir em frente, procure saber o que o seu professor exige. Os professores têm a liberdade de cátedra, podem conduzir suas aulas da forma que bem entende.
Eu sempre procurei orientar para uma experiência de pesquisa científica, buscando somente aprender o processo e nunca buscar soluções. Soluções ou algo próximo disso é função de teses de doutorados e pós-doutorados.
O estudante tem que fazer um projeto, realizar a pesquisa, elaborar o relatório, apresentar o trabalho.
Nosso foco, neste texto, é a apresentação do trabalho e por pressão das circunstâncias, trazemos alguns comentários sobre projeto, pesquisa e relatório.
2. Envolvimento da plateia com o discurso.
O primeiro tema do programa é sobre o envolvimento da plateia com o discurso do apresentador, ou do orador, ou do apresentador, seja lá quem for, conforme a ocasião.
Comunicar é tornar comum um conhecimento ou uma informação. Normalmente a conversa é mais eficiente que a fala na comunicação de uma ideia, pois enquanto a fala é só o uso de palavras, a conversa é considerar o verso, considerar o outro. considera o outro lado, o nível de interesse da plateia e seu o nível de conhecimento sobre o assunto em pauta. Conversa demanda empatia, o olhar do ponto de vista do outro.
Na escola, seja em apresentação de trabalhos curriculares, seja na apresentação do TCC, da dissertação ou da tese, muitos dos que ali estão, mesmo na banca examinadora, não tem qualquer interesse no assunto, nem simpatia pelo orador.
Nem sempre a plateia está interessada na fala do orador, cabe a este achar um ponto favorável para ligação efetiva da comunicação.
O aluno tem a seu desfavor a ideia de que o professor sabe tudo que o aluno vai falar. Geralmente é verdade, mas nem tanto. A maioria dos professores está mesmo interessada nas falhas do aluno para decrescer a nota, mas não são todos assim. Geralmente o aluno se atrapalha ao tentar mostrar o que sabe, ou acha que sabe. Melhor seria mostrar o que tentou aprender e as dúvidas que ficaram.
Fazer o relatório da pesquisa, e, se pesquisou mesmo, vai ter uma série de dúvidas mesmo, pois a obrigação do aluno não é ensinar o professor, mas fazer o relatório da sua aprendizagem. Isso é válido para um trabalho de classe e para um TCC, tanto na formação quanto na especialização. A apresentação pública se torna uma aula para os colegas e outros professores que estejam assistindo. A melhor aula é aquela que apresenta uma série de perguntas que fazem o auditório pensar.
Meu orientador de doutorado dizia:
Se você me fizer uma afirmação, terei 99% de chances para contradizer sua afirmação; se você fizer uma pergunta, ou relatar uma dúvida, não terei como discordar, porque é sua pergunta, é sua dúvida.
Coloque-se como estudante que a fez sua primeira tentativa de aprender uma pesquisa científica. Relate a realidade, conte a verdade. Declare quais suas perguntas ficaram sem resposta. Isso já evita que a banca faça perguntas sobre isso.
Nada mais patético, do que um aluno querendo dar uma de professor. Para atuar, dizer o texto do outro, é preciso ser bom ator. Aliás, como veremos mais adiante, o ator é bom quando não parece que está atuando.
Ao escrever o texto, o estudante deve pensar o que vai falar e para quem vai falar. Sua audiência, sua plateia, tem professores e colegas alunos. Ninguém sabe mais da sua história naquela empreitada do que você mesmo. Conte sua história.
Aqui o tema é o envolvimento da plateia com o assunto, espero então poder utilizar o interesse e aguçar a curiosidade, de vocês, sobre o assunto. O domínio da técnica de apresentação.
O aluno que vai apresentar o TCC, ou outro trabalho escolar, deve estar atento ao que o professor valoriza, pois não interessa a verdade do fato, mas a verdade de quem ouve o relato. Por exemplo, se o professor for um pastor, um padre ou um delegado, você já tem alguns indícios do que ele gosta de ouvir. Não tente convencê-lo do contrário, por mais certo que você se julgue estar.
Se o professor gosta de citar um determinado autor, já está mostrando alguns dos seus valores, de suas crenças. Sua carreira acadêmica pode depender da nota desse professor, mais do que aprendeu com seus estudos.
Geraldo Clemente, meu amigo, fazia a faculdade de direito onde tinha um professor de direito constitucional que só falava de Rui Barbosa. Na hora de fazer um trabalho para apresentar por escrito, foi à biblioteca e achou um antigo texto do Rui Barbosa. Escreveu uma introdução ao tema, colocou o recheio do Rui Barbosa e completou o trabalho com uma consideração final. Tirou nota quatro. O professor disse que o começo e o fim estavam bons, mas o meio estava muito enrolado.
Geraldo não teve dúvida: Então é 8 para mim e zero para o Rui Barbosa.
3. O uso da voz na comunicação.
Antes da história, isso quer dizer antes da escrita, tudo era transmitido somente pela comunicação oral. Mesmo depois de a escrita ser desenvolvida por alguns povos, poucos dominaram a arte. A escrita era restrita a palácios e conventos. Com a invenção da tipografia móvel, por Gutemberg no século XV, por volta de 1440, é que o livro teve a possibilidade de se multiplicar mais facilmente. Antes disso, os livros eram feitos a mão, por copistas, tal como mostrado em “O nome da rosa” de Umberto Eco.
Mesmo depois do desenvolvimento da imprensa, com a circulação de jornais, a capacidade de leitura e de entendimento da escrita continuou restrita a poucos. Até hoje a comunicação oral é preponderante, seja pelo rádio ou pela televisão. Mesmo agora com a popularização dos meios digitais o som e a imagem são mais impactantes que os textos.
Nas relações sociais, sejam nos encontros de grupos, nas atividades acadêmicas ou empresariais, a fala continua tendo valor inestimável na valorização das pessoas. É pela fala, ou pela falta dela, que se julgam as pessoas. Falar melhor também se aprende, apesar de exigir um esforço coordenado entre técnicas e saberes diversos. Nem só de técnica se faz um orador, mas um sábio sem a técnica de oratória não consegue transmitir o que sabe.
Lembro de Ziraldo dizendo:
“Uma imagem vale mais que mil palavras, mas como dizer isso sem usar uma palavra?”
A comunicação de uma realidade, de um fato destacado, é um texto produzido a partir de uma observação. A fala sobre um fato demanda o domínio da linguagem sobre o contexto em que tal fato se produziu.
A realidade como um todo não existe, pois, a comunicação de uma situação dentro de um contexto demanda a produção de diversos textos que se complementam. Tudo é texto produzido por alguém, transmitido em palavras, escritas e faladas.
“Eu vi um carro entrar na contramão e bater de frente com o ônibus.”
Isto é um texto de um fato que eu vivi. Suponho que você saiba o que é carro, o que é contramão, o que é ônibus. Este mesmo fato pode ser relatado por um texto produzido pelo motorista do carro, outro produzido pelo motorista do ônibus, outro produzido pelo morador da casa em frente.
Qual texto representará a verdade do fato?
Contar uma coisa ao um público demanda considerar o conhecimento daquele público sobre tal assunto. Se falo de minha tese de doutorado para meu colega de pescaria, não posso utilizar os mesmos termos que fui obrigado a usar na defesa da tese na banca examinadora de cinco professores doutores.
A verdade na fala
Nada soa melhor que a verdade. Uma voz falseada pode encantar de início, mas fatalmente provocará uma derrocada final. O problema geral se quem tenta falar em público querendo ser o que não é, esbarra na dificuldade de não ser ator suficientemente bom para levar a empreitada até o fim do texto.
Ator bom é aquele que fala o texto como se fosse verdade, mesmo sendo um texto escrito por outra pessoa. O bom ator encanta a plateia que até esquece estar diante de uma representação e se emociona com a “realidade” a sua frente. O bom orador, transmite a sua verdade. Mas você não deve confiar na sua capacidade de atuar. O aluno que apresenta o texto do seu trabalho (TCC) precisa aprender a dizer a verdade do seu aprendizado, inclusive sobre as suas dúvidas. Provavelmente os professores da banca devem saber muito sobre o assunto que o aluno está apresentando, mas ninguém sabe a importância daquele aprendizado vivido pelo aluno que fez a pesquisa. É a hora da sua verdade, não do tema, mas do relato da pesquisa.
Não me esqueço de um aluno formando em administração de empresas, que pesquisou “como as empresas administram os acidentes de transporte de carga com motorista que usa anfetamina”. Não achou a resposta e queria desistir da formatura pensando em fazer mais um ano. Orientei que ele não precisava achar a resposta, mas relatar o que havia achado na pesquisa. Falou sobre acidentes, sobre motoristas, sobre anfetaminas, e declarou que não havia nenhum artigo que respondesse a tal pergunta inicial. Passou com louvor, pelo relato da pesquisa. Pois a verdade é que as empresas encobrem esse assunto.
A palavra falada é uma ideia que se expressa por som, ou, melhor dizendo, é uma ideia que se tenta comunicar através do som da palavra. Mães costumam reclamar: “eu falo, falo, falo, e meu filho não entende.” Aí está o erro, falar não é comunicar, conversar é comunicar. Considerar o verso é ter me mente o que o professor sabe e o que a plateia sabe sobre o tema, mas ninguém sabe do seu percurso durante a pesquisa; é isso que tem que relatar e uma forma que todos entendam. O valor de quem fala, depende dos valores de quem ouve. O que o ouvinte entende do que ouviu.
A técnica da voz
Dúvidas dos alunos: falar alto ou baixo, rápido ou lento.
O estudo da voz pode ser um curso exclusivo de alguns anos, seja na medicina, seja na fonoaudiologia. Muitos são os fatores ligados ao resultado se que consegue com a voz, suas possibilidades e seus limites. Pouco se pode fazer para mudar a constituição das cordas vocais, no entanto, alguma coisa se pode fazer para melhorar a fala em termos de “Ritmo – Volume – Tom”
Ritmo (rápido/lento) está ligado ao tempo, o quanto se fala num determinado tempo, quantos sons são produzidos por minuto; isso pode representar uma fala extremamente lenta e cansativa ou uma correria vocabular no limite do ininteligível. Nem rápido demais, nem lento demais, apenas no ritmo que for agradável à plateia e conforme o assunto em pauta. Basta lembrar de alguns professores que passaram por suas vidas.
Lembra-me um professor de português, ainda na época do vestibular, lá se vão muitos anos, dizendo de um inglês que para vir trabalhar no Brasil estudara português suficiente para se comunicar eficientemente. Mas logo na saída do aeroporto ouviu do carregador de malas: “amald’minin quécolevo?”
Volume (alto/baixo) é a intensidade sonora, do inaudível ao estrondo sonoro. O volume deve ser o suficiente para chegar agradável aos ouvidos da plateia. Volume é uma vibração que cansa, por isso deve ser dosado.
Nesta questão de volume é bom cuidar bem do som amplificado, geralmente usado em palestras, pois pelo que eu entendo, devido à longa vivência no ramo: “todo técnico de som é surdo”. Quando vou a eventos onde tem som amplificado costumo levar aquelas borrachinhas de tapar os tímpanos. Recentemente fui a um show no Sesc, tinha esquecido dos tampões, tive que improvisar com lenço de papel molhado. Doutra feita, uma turma de graduandos resolveu fazer uma homenagem ao professor. Fui ao evento da formatura, mas quando a banda começou a fazer barulho, tive que sair do ambiente.
Tom (grave/agudo) expressa uma escala cromática musical, geralmente o homem é mais grave e a mulher mais aguda, no popular: voz grossa e baixa; voz fina e alta. Não existe uma receita que atenda a todos, mas o melhor é tentar conseguir uma variação em torno da média e uma alternância para não ficar monótona (mono tom)
Exercício do bridão para melhorar a voz e a respiração: De pé, com um lápis atravessado na boca, tal como o bridão do cavalo, leia em voz alta um texto qualquer até achar que está se saindo bem na pronúncia das palavras e na respiração. Tire o bridão e continue lendo para ver a diferença que faz o exercício. Na internet podem ser encontrados muitos exercícios para melhoria da voz, mas o ideal, quando possível, é pagar um profissional fonoaudiólogo.
Falar “de cor”
No entanto, a voz não é só o som emitido pela boca, pois além da vibração sonora existe uma vibração existencial, há vida nas palavras. Quando a palavra vem do coração (de cor) traz um colorido especial na sua significância, traz a vida de quem fala.
Decorado não é um texto repetido automaticamente, mas uma fala que traz emoção do seu coração. Para tanto cada frase é resultado de estudo, de esforço, de aprendizado e de sua crença de acordo com seus valores.
Dizia um professor de oratória:
se quer ver um discurso efetivo, pise no calo de alguém.
Na sua fala, defenda sua ideia, transmita a confiança da sua verdade, sempre considerando o outro que ouve, os valores do outro, as possibilidades do outro.
4. Como criar empatia com a plateia.
Um dos maiores problemas confessados pelos alunos é de não conseguir a atenção para a sua fala. É o medo do julgamento dos colegas. Quanto mais crítica é a pessoa, mais tem medo das críticas dos outros. Vamos tentar colocar o outro a nosso favor.
Empatia é a tentativa de olhar o mundo pelo olhar do outro, sentir o mundo pelo sentimento do outro. Tentar entender e sentir o mundo como o outro entende e sente. É claro que não dá para fazer isso cem por cento. Não é possível ser exatamente como o outro nessa relação. Tentar ser empático é tentar estar no mundo ao lado do outro. Olhar o mundo do ponto de vista do outro.
“só consigo ver o mundo, do meu ponto de vista”
Duas pessoas podem estar olhando o mesmo objeto, no mesmo local, na mesma hora, e cada um vê uma coisa diferente. Cada um de vocês aqui nesta sala está vendo uma pessoa aqui na frente, eu, e cada um está vendo uma pessoa diferente. Cada um está pensando ou formando conceitos diferentes sobre mim.
Imaginem vocês um jogo de futebol, tipo Palmeiras e Corinthians; vocês acham que os torcedores (palmeirenses e corintianos) assistem o mesmo jogo? Empatia seria tentar ver o jogo que a torcida adversária está assistindo.
Lembro-me do filme “Sociedade dos poetas mortos” quando Robin Williams foi indicado para o Oscar de melhor ator de 1989. Um colega de curso reclamou que Robin Williams deveria ser indicado para coadjuvante, pois o ator principal era o aluno e não o professor. Foi difícil entender tal desvio de entendimento do colega até ficar sabendo que esse colega de escola era um ator amador, tal como o aluno daquela escola do filme. Para ele a história girava em torno do aluno e não do professor.
Empatia na preparação da palestra é tentar pensar o que o outro já sabe e quais são as dúvidas que outra pessoa teria sobre tal assunto. Pensar nas perguntas possíveis a partir do conhecimento e do interesse do outro. Trazer seu texto como se fosse a solução para seus ouvintes. Falar o que sabe sobre o seu tema pode não servir nada para a pessoa que não quer saber do assunto ou quando o enfoque não é de interesse dela.
Moreno, aquele do psicodrama, dizia da dificuldade de entendimento entre as pessoas dizendo que seria necessário:
“arrancar meus olhos e colocar nos seus olhos, para você me ver com os meus olhos; arrancar os seus olhos e colocar nos meus olhos, para eu ver você com os seus olhos.”
O orador numa plateia, precisa saber pelo menos um pouco do que aquele povo está esperando e ninguém esperará um show daquele aluno.
O aluno na apresentação do trabalho deve se ocupar em atender o que o professor pediu durante as aulas. Como se diz no marketing digital, entregar o que prometeu. Para tanto passaremos agora à organização do discurso, a fala que vai abordar um problema discutir a busca das soluções.
5. Organização das ideias na apresentação.
Quem não sabe para onde vai, nenhum vento é favorável (Seneca)
Todo projeto é de um empreendimento para sair do ponto A e chegar ao ponto B. Nem sempre esse é um trajeto físico, pode ser de atitudes mentais, mas sempre envolve uma mudança. Todo movimento promove uma mudança.
O problema maior é que o aluno não sabe aonde quer chegar. Não sabe determinar o problema da pesquisa.
No mundo real, os problemas aparecem para serem enfrentados. Na escola, há um faz de conta, se escolhe um tipo de problema para estudar as possibilidades de enfrentamento.
Poderíamos discutir projetos e mais projetos de todas as áreas e feitios, mas vamos nos atentar somente na condução da apresentação. Servem, no entanto, os princípios básicos de um projeto clínico:
- Análise situacional
- Identificação de um problema
- Uma pergunta sobre o problema
- Especificação das delimitações da abordagem do problema
- Pesquisa de possíveis soluções
- Relatório da pesquisa
- Considerações finais
Ou seja, analisar ou descrever a situação como está para situar um problema naquela situação. Nunca dá para resolver todos os problemas ou o problema como um todo, mas se recomenda destacar uma faceta do problema para ser enfrentado de início. Especificar as delimitações da abordagem do problema e não prometer mundos e fundos que nunca vão se concretizar. Partir para especificar os objetivos mínimos do presente trabalho, sabendo que só assim poderá dar conta dessas metas. Partir para busca de soluções possíveis já encontradas no mercado ou na literatura. Resumir os resultados da pesquisa e apresentar sugestões se for o caso. Por vezes o estudo é só para entender o problema. Nem sempre, ou quase nunca, se permite concluir definitivamente.
Análise situacional
É um levantamento da situação atual reinante no contexto em questão, cada um vive e percebe a vida a partir de um ponto de vista. Para facilitar o levantamento da situação podemos fazer algumas perguntas:
– o que está acontecendo neste contexto?
– qual a implicância dessa situação em nosso negócio, ou tema?
– o que tem sido tentado na solução desses problemas?
Uma pedra no caminho pode ser tratada das mais diversas formas. Pode-se pular a pedra, desviar da pedra, explodir a pedra, ou voltar para trás ou mudar o rumo do seu caminho.
Fosse o caso do estudante em formação ou especialização que precisa apresentar o seu TCC, poderia pensar assim:
Acontece que eu preciso apresentar um trabalho para os professores da banca de avaliação, com toda classe assistindo, e não estou seguro quanto às minhas possibilidades, na verdade, estou com medo de fazer a apresentação.
Só resta enfrentar a situação e superar o medo.
Identificação de um problema
(Veja no meu site: “O problema não é o problema.” https://psrossi.com)
Uma coisa é o problema da pesquisa, outra coisa é o problema da apresentação dos resultados para uma plateia.
Vamos nos ater na segunda colocação, que é o nosso problema central – Discursar.
É o diagnóstico situacional que delineia um problema em específico para ser trabalhado. Não dá para resolver tudo de uma vez numa só ação, por isso é necessário identificar ou eleger um problema específico para ser trabalhado. Não quer dizer que isso resolva tudo, mas é o encaminhamento de uma solução parcial. A palavra mais utilizada é “equacionar”, ou seja, montar uma equação que mostre a possibilidade de um resultado.
Pensemos numa situação clínica, onde o médico pergunta o que você está sentindo. É a busca da identificação do problema que se pretende resolver. É a tentativa do diagnóstico. Sem identificar o problema resolver de que forma se pretende resolver, remédio nenhum vai adiantar. Não existe a panaceia universal, um remédio para todos os males.
Quais problemas podem acontecer durante uma apresentação? Diga aí você mesmo.
Identificados os problemas, surge a necessidade de escolher quais serão trabalhados primeiro, daí podermos recomendar uma das etapas do método cartesiano: ordenar do maior para o menor e começar do menor para o maior.
Voltando para o nosso contexto, a palestra, o problema de cada um dos senhores para o enfrentamento da situação são exclusivos na sua avaliação, mas pode ser comum a todos, daí a validade de um curso mais genérico.
Quem tem dinheiro suficiente pode contratar um personal training, um coach, mas no geral, podemos nos contentar com cursos amplos onde diversos fatores são citados e alguns acabam sendo úteis. Em muitos casos, os médicos recomendam um antibiótico de larga escala por não identificação do problema real.
Qual é o seu problema? Inibição, medo, gagueira, dislalia, vocabulário, voz, conhecimento específico, técnicas de apresentação?
Seja qual for o problema, ele tem que ser mais bem especificado.
Uma pergunta sobre o problema
Identificado um problema, por menor que seja, podem surgir muitas perguntas sobre ele. Sobre um átomo existem muitas perguntas. Poderíamos elucubrar muito sobre isso, mas vamos nos ater a um exemplo: a voz do orador.
Se o problema é a voz, posso garantir que não há solução; pois teria que nascer de novo, com novas cordas vocais, fazer curso de canto e de música, mas posso fazer uma pergunta: “o que dá para fazer para melhorar a voz?”. Vejam que não estou resolvendo o problema, mas procurando alguma melhoria.
Se ficarmos com essa pergunta, ela já define o objetivo do trabalho: Procurar soluções plausíveis para uma melhoria na qualidade da voz, mais especificamente, soluções médicas, soluções educacionais, soluções tecnológicas.
A prático do discurso, da oratória, tem muitos mais problemas do que pode imaginar um novato no ramo. Não é para ameaçar ninguém, mas para atentar o estudo em cada detalhe.
Especificação das delimitações da abordagem do problema
A pesquisa sobre a voz, conforme determinado no item anterior, vai necessitar de um balizamento teórico científico para sua execução. Vou me permitir ouvir qualquer um e ler qualquer coisa na internet, ou de maneira mais exigente, vou me restringir a artigos científicos publicados em revistas renomadas? Vou focar minha pesquisa nas opiniões teóricas ou nos relatos de resultados da aplicação da teoria? Vou procurar solução radical para o problema ou simplesmente buscar uma melhoria provisória?
A determinação de um objetivo para esta palestra foi simplesmente a de mostrar possibilidades de melhoria de desempenho em situações de exposição na academia. Mais especificamente abordar alguns temas de forma superficial na tentativa de provocar a curiosidade sobre o assunto. Não é objetivo, desta palestra, tornar todos vocês palestrantes profissionais.
Pesquisa de possíveis soluções
Determinado o objetivo geral e os objetivos específicos, o pesquisador parte para a busca de encaminhamentos a partir de experiências dos outros, de casos relatados. Ninguém vai inventar uma solução nova para problemas tão antigos e ainda sem soluções definitivas.
No caso da voz, pode-se partir para uma busca na medicina e nos especialistas em fonologia; pode-se concentrar nos professores de canto e de teatro para utilizar suas técnicas; ou ainda, procurar uma psicoterapia para resolver-se apesar das limitações.
No nosso caso, a proposta desta palestra, nos ativemos simplesmente na discussão do rivoto e da promessa do bridão.
Relatório da pesquisa
Uma vez feita a pesquisa, buscadas as respostas para as perguntas, cabe escrever um relatório que descreva ou narre os acontecidos durante as pesquisas.
O relatório depende de quem vai ler, a fala depende de quem vai ouvir. Depende a intensidade e da profundidade que cada leitor vai esperar. Lembro que eu estava exigente numa turma de formandos em administração e o coordenador do curso me repreendeu: “professor Pedro, é só um TCC!”
É muito comum nos congressos em geral, o expositor perder cinco minutos dizendo que em dez minutos não vai dar para falar tudo que gostaria. Deveria ir direto ao assunto.
Considerações finais
Considerar não é concluir. Não há espaços para conclusões em trabalhos rápidos. Às vezes, nem em uma vida dá para concluir alguma coisa. As melhores considerações sobre um trabalho têm sido aquelas que propõem mais estudos sobre o tema para procurar mais alternativas que não foram consideradas.
Se você estava esperando a revelação de um segredo mágico na arte de falar em público:
“Diga tudo, em poucas palavras”
6. Utilização de recursos audiovisuais.
A primeira coisa que se deve saber sobre esses recursos audiovisuais é que são recursos auxiliares, não são a essência. A palestra deve ser preparada de uma forma que se todos os recursos auxiliares falharem, mesmo assim, a palestra pode ser feita.
Fui contratado para dar uma palestra sobre vendas para uma empresa de materiais de construção de Campinas. Minha apresentação era no período da tarde, mas como mandam os preceitos básicos de quem trabalha em equipe, cheguei cedo para assistir o palestrante da manhã que falaria sobre marketing. Seria muito ruim se na apresentação da tarde os conceitos de marketing do período da manhã fossem contraditados grosseiramente. Sabendo do que o colega tinha falado poderia utilizar ou desviar do assunto polêmico. A apresentação deveria começar às 8 horas, mas o retroprojetor deu defeito, não ligava. Alguém resolveu trocar a lâmpada do retroprojetor pela lâmpada reserva que havia no próprio aparelho. Ao pegar a lâmpada reserva com as mãos já estragou essa também. O palestrante tentou falar sobre marketing, mas não conseguia desenvolver porque não tinha o recurso auxiliar para projetar suas pranchas.
Às dez horas, quando foi servido um café, o gerente da empresa veio consultar-me da possibilidade de eu assumir dali para frente, pois o outro não tinha mais o que dizer. Assumi, sem utilizar qualquer recurso audiovisual, contei meus causos, minhas histórias de vendas, até no final da tarde. Eu que dava cursos de quarenta horas, uma semana inteira, teria que reduzir tudo a quatro horas, não foi difícil estender para seis horas.
Power point
O recurso disponível mais utilizado, tanto na academia quanto nas empresas, é o Power Point da Microsoft. Devemos nos atentar ao nome do recurso “Ponto Forte”.
Devem ser apresentados os “pontos fortes”, as manchetes do assunto, não o texto todo. Ninguém lê um texto em Power Point, mesmo porque não foi para isso que foi feito, mas para serem destacados os títulos, as palavras chaves do assunto em discussão.
Regra geral, de quatro a seis frases de cinco a dez palavras.
Power point também não é televisão ou cinema. Nada de ficar apresentando figurinhas em movimento como se isso fosse segurar a atenção da plateia.
Escrever na lousa ou no quadro branco
Escrever é um perigo quando não se tem uma boa letra. Tive um professor no doutorado na Unifesp que não sabia escrever. Sim porque o que fazia na lousa não era uma escrita, mas rabiscos que ninguém entendia.
Qualquer palestrante pode utilizar o quadro se assim quiser, mas tem que tomar cuidados com a letra e a correção do português, pois pode escrever palavras de z com s, de x com ch e nem perceber.
Internet
Usar internet está na moda, o problema é que nem sempre o palestrante domina o suficiente para usar tal instrumento. Tive um professor de italiano que sabia a música que tinha tal palavra; qualquer palavra que se dissesse em italiano ele imediatamente buscava no youtube a música que continha aquela palavra.
Dramatização, jogos e dinâmicas.
Aqui poderia começar um capítulo à parte, pois como psicólogo tenho muito a dizer sobres essas incursões amadoras num trabalho profissional. Mesmo muitos psicólogos têm falhado direto nas tentativas de utilização dos recursos dinâmicos. Tenho uma ferramenta de trabalho que já utilizo por mais de 30 anos. Posso dizer que consigo fazer de tudo com aquela ferramenta desenvolvida a partir de uma dinâmica de um autor americano. Adaptei para meu uso e usei muitas e muitas vezes. Avalio e faço bem. Foi objeto de TCC na minha especialização em Didática no Ensino Superior.
Certa vez apresentei tal trabalho no meio serviço entre colegas psicólogos, a título de demonstração mesmo de minhas habilidades e deu resultado, fui aplaudido. Soube depois que um deles, noutro evento de chefia, quis fazer a mesma apresentação diante de outros dirigentes, foi um fracasso.
Não é fácil e é perigoso querer entreter com dinâmicas. Pode sensibilizar demais, a ponto de causar um surto, ou pode virar brincadeira de mau gosto.
Uso do espaço na comunicação.
A relação orador/plateia é um tanto desigual: é um entre muitos, ou muitos contra um, mas o orador tem um espaço privilegiado diante de todos, um espaço de poder, e a pretensa autoridade do uso da palavra. Essa autoridade pode ser contestada ou subvertida por diversas situações que todos já conhecem, principalmente, como alunos.
O uso do espaço cênico, pois se configura como uma atuação, deve e pode ser apreendido por todo aquele que pretenda ocupar algum tempo diante a uma plateia. Assim como se aprende a dançar, frequentando uma academia de dança, também se aprende a usar o palco, ou as técnicas de uso do espaço, seja numa aula, seja numa palestra ou apresentação de um projeto.
A dança do triangulo é uma técnica para ocupação mínima do espaço para movimentação do orador. Num espaço pequeno, dá um passo de 45 graus, para a frente e o lado direito, depois um passo para o centro, depois um passo para a esquerda, depois volta 45 graus para trás, no local original. Pode-se inverter o triângulo, botando a ponta para frente. De inicio será tão artificial quanto o bailarino se treinando os primeiros passos, mas com o tempo e treinamento será uma dança descontraída.
O olhar triangular é uma técnica para passear o olhar pela sala dando a impressão de estar falando com cada um dos participantes. Um olhar para o meio da primeira fileira, outro para a esquerda da última fileira, daí para o centro da plateia e outro para a direita da última fileira. Quase todos os participantes se sentirão contemplados com sua atenção.
Aproveita-se aí para a busca de um ponto de apoio para as suas considerações, descobrindo, entre os participantes, aqueles que acenam com a cabeça, concordando com o orador.
7. Conceitos de marketing aplicados à palestra.
Todo o dinheiro que você ganha, menos o que o governo lhe toma, é para ser entregue para um vendedor. O dinheiro não tem outra função que não seja a de circular na troca de mercadorias ou serviços.
Gastar deveria ser um prazer, pois se trabalha para ter o prazer de gastar o que ganhou. No entanto, dificilmente se acha pela frente um vendedor na acepção correta da palavra, na significação correta da profissão; via de regra, é um simples atendente, quando se acha alguém que se submeta a atender.
Vender é ajudar a realizar sonhos, ajudar a gastar com prazer. No mais das vezes se entra numa loja querendo gastar e se sai insatisfeito por não ter gastado com o que queria.
O vendedor é um especialista naquilo que vende e você tem todo direito de usar os serviços daquele especialista quando quer gastar o seu rico dinheiro para comprar o objeto do seu desejo.
O bom vendedor não é um adversário numa competição de esperteza, mas um auxiliar na escolha do melhor produto ou serviço a ser comprado.
Assim como o bom ator é aquele que não parece estar atuando, o bom vendedor não parece estar vendendo, mas ajudando a comprar.
Vender uma ideia não é convencer o outro na argumentação, mas dar meios para o outro também siga o caminho do seu raciocínio, ou da sua opinião.
Havia uma discussão entre publicidade e propaganda, dizia-se que publicidade seria para a venda de um produto e a propaganda para a venda de uma ideia, mas ao longo da história se percebeu que ninguém compra produto, mas a ideia do usufruto do produto.
Um discurso é uma propaganda, a tentativa da venda de uma ideia.
Na apresentação de um trabalho, seja na universidade, seja na empresa, o objetivo é vender a sua ideia sobre o tema que você pesquisou. Vender é ajudar o outro a consumir, vender a ideia é ajudar o outro a entender e buscar concordância com sua fala.
8. A psicologia na comunicação.
Não existe uma ciência chamada psicologia, mas diversas vertentes que se intitulam psicologia. Algumas beiram a medicina, outras beiram a antropologia, outras beiram as religiões, e não sou eu quem vai dizer o que é certo ou errado. Da minha parte estou mais próximo do que se denominou psicologia humanista, a partir de Maslow, seguindo os estudos de Carl Rogers, aqui denominado Abordagem Centrada na Pessoa.
Toda ciência, como processo de estudo de um objeto, tem uma coerência interna e por isso é respeitada. Não há verdade científica, mas o último artigo publicado numa revista importante.
Estou colocando isso para alertar alguns oradores que se aventuram a falar de psicologias como se fosse do seu domínio e apresentam “o samba do crioulo doido”. Algumas palavras são propriedade de uma vertente de estudos psicológicos, tais como a pulsão é da psicanálise, o condicionamento é da comportamental, a aceitação incondicional é da humanista, o insight é da Gestalt, mas alguns misturam tudo criando o absurdo de dizer de um “insight condicionado pela pulsão”, ou coisas do gênero. É como marcar um gol num jogo de basquete.
Se eu utilizo a psicologia humanista, a partir de Maslow, vou fazer um discurso apresentando os conceitos de necessidades básicas como sendo as fisiológicas e de segurança, as intermediárias de socialização e reconhecimento, a superior de realização. Não poderei justificar uma necessidade básica pelos pressupostos psicanalíticos de Freud ou Jung.
O mínimo que se pede quando do uso de alguma teoria é a honestidade profissional de respeitar a ciência posta, seja ela de que origem for.
Para encerrar, falando em psicologia, vamos tomar do pensamento de Carl Rogers: “Nada substitui a experiência”; agora só resta participar do curso prático e praticar bastante, experimentar até ficar experiente.