O problema é o problema

Resumo

Considerando as dificuldades que muitos alunos apresentam quando da elaboração do projeto de pesquisa, este artigo propõe uma discussão metodológica, quase um raciocínio clínico, quanto à necessidade de um diagnóstico do problema a ser estudado como ponto básico para elaboração da pergunta da pesquisa e o estabelecimento dos objetivos. Busca estabelecer uma diferenciação nítida entre projeto de pesquisa e projeto de intervenção. Defende o planejamento do trabalho de pesquisa como fator primordial para a boa realização do empreendimento seja ele acadêmico ou empresarial. Procura mostrar que para um melhor aproveitamento do esforço da pesquisa, o projeto deve contemplar com exatidão: o problema, a pergunta e os objetivos.

Palavras-chave: metodologia de pesquisa, problema, pergunta, projeto de pesquisa, projeto de intervenção.

Introdução

O planejamento de uma pesquisa exige a definição de caminhos para chegar a um destino e para tanto é necessário já ter um rumo definido para chegar ao objetivo, pois como já dizia Sêneca no século I: “Se o homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável”. Em todas as áreas vividas profissionalmente (vendas, marketing, administração, saúde e educação) pude notar uma deficiência generalizada nas questões de planejamento. Empresas que lançam produtos e serviços sem a devida pesquisa de mercado, ou baseadas em pesquisas mal feitas, correndo o risco do fracasso comercial; empresas que implantam procedimentos inovadores sem a devida análise situacional. Serviços de saúde, sejam eles públicos ou privados, que não dimensionam bem a demanda e acabam quase sempre atendendo muito mal. Todos conhecem, de ouvir dizer ou de sentir na própria pele, pesquisas mal planejadas que deram em nada. O problema está no problema, no diagnóstico correto e na definição da abordagem do problema. Desculpem-me a ênfase, mas é a mais simples das verdades: o problema está no problema. Geralmente o projeto, ou o empreendimento, peca pela falta de um diagnóstico exato, pela indefinição do problema a ser enfrentado ou da questão a ser analisada.

O problema

Vários autores consagrados já se debruçaram sobre a questão do problema de pesquisa. Para Severino (2004, 75) “é preciso ter uma ideia clara do problema a ser resolvido, da dúvida a ser superada”.

Para Luna (2007, 40) “… a insistência quanto à clareza da formulação do problema e da sua delimitação visa a obtenção de parâmetros claros para as decisões metodológicas…”.

Destaco aqui:

“Problema”, portanto, tem um significado especial no mundo da pesquisa, que às vezes confunde os pesquisadores iniciantes, que normalmente pensam em problemas como coisas “ruins”. Todo pesquisador precisa de um “bom” problema de pesquisa em que trabalhar. Na verdade, se você não tem um bom problema de pesquisa, tem um problema prático realmente ruim. (BOOTH, COLOMB e WILLIAMS 2000, 87)

Para Beuren (2009, 64) “Para aclarar o objeto de pesquisa que o estudante se propõe investigar é interessante fazer a descrição do problema, especulando sobre possíveis relacionamentos de algumas variáveis, até chegar à formulação do problema em si”.

Para Cervo e Bervian (1996, 66) “Problema é uma questão que envolve intrinsecamente uma dificuldade teórica ou prática, para a qual se deve encontrar uma solução” e emendam logo adiante (p.67) “Embora o pesquisador não chegue a uma solução – frequentemente não são encontradas soluções imediatas para os problemas – cabe-lhe o mérito de ter aberto o caminho”.

Para Gil (2002, 26);

Formular um problema científico não constitui tarefa fácil. Para alguns, isso implica mesmo o exercício de certa capacidade que não é muito comum nos seres humanos. Todavia, não há como deixar de reconhecer que o treinamento desempenha papel fundamental nesse processo.

Alguns autores, e são tantos os livros de metodologia, confundem problema com pergunta. Dizem que: “Todo trabalho tem por objetivo dar respostas a determinados problemas ou tornar claras determinadas colocações” (SANTOS e PARRA FILHO 2011, 184). Ora, não se dá resposta ao problema, mas à pergunta que se faz diante a um problema. Um problema pode permitir uma série interminável de perguntas, como veremos adiante.

O problema é um fato ou uma circunstância que incomoda, perturba, atrapalha, provoca, causa prejuízo ou curiosidade. A pesquisa sobre o problema deve buscar o entendimento suficiente para resolver ou entender o problema, na medida do possível; nem sempre se consegue resolver ou entender plenamente o problema. Mormente se conseguem informações suficientes para chegar perto ou promover uma adequação ou adaptação, algo próximo do desejado. Lembra-me a oração da serenidade: “Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras”. Assim podem ser encarados todos os tipos de problemas. Há os que podem ser mudados, há os que não podem e se faz necessária a aceitação. O difícil é saber por antemão o que pode ser mudado ou o que deve ser aceito. Daí a proposta de fazer uma pergunta sobre o problema. Uma pergunta, e pesquisar as possibilidades de respostas para a pergunta. Então não será mais o problema que estará em discussão, mas uma parte do problema destacado na pergunta.

Realmente não é uma tarefa fácil, é o momento em que a maioria dos alunos de graduação e mesmo de pós-graduação perdem muito tempo no processo especificar o problema a ser estudado.  Enquanto professor eu sempre procuro evitar resolver pelo aluno o problema que ele quer estudar. Assim como na terapia não cabe ao psicólogo resolver o problema do paciente, no ensino da pesquisa não cabe ao professor dizer quais são os problemas a serem estudados (a não ser que seja um grupo de estudo, em que o problema já foi estabelecido por antecedência). Às vezes o aluno até sabe o que quer, mas a dificuldade está na expressão correta, na tradução de uma intenção em uma frase escrita.

Nas empresas também ocorrem dificuldades e enganos quanto aos problemas a serem resolvidos ou enfrentados. Conta-se que numa grande multinacional houve uma reunião de diretoria para discussão dos problemas da empresa. Sobre uma longa mesa estavam pilhas de pastas organizadas por categorias de problemas: problemas de qualidade, problemas de entrega, problemas de serviços, problemas de recebimentos, etc. O velho diretor presidente da empresa passou o braço sobre a mesa jogando todas as pastas para o chão, dizendo: “A empresa só tem um problema: alguns de nós atendemos mal nossos clientes; clientes bem atendidos não apresentam problemas. Temos que revisar os nossos atendimentos”.

No serviço público, em alguns lugares que eu conheço, o planejamento se pauta na disponibilidade financeira, ao invés do diagnóstico situacional. O problema do planejador está em que gastar a verba destinada e não na elaboração de ações para solução dos problemas que demandaram a alocação da verba. Parte-se da disponibilidade financeira para realizar um projeto de como gastar o dinheiro. Mais ou menos como ter cem reais para gastar em remédios, sem saber o diagnóstico da doença que vai indicar este ou aquele remédio.

Na educação também existe uma série de incoerências no ensino de coisas que não estão relacionadas a nenhum projeto de desenvolvimento. Ou, se apesentaram alguma justificativa na sua implantação, já não se sabe mais o porquê de tal currículo. Lembro-me de ter perdido muito tempo decorando a tabela periódica, o ciclo de Krebs, a drosóphila melanogaster e coisas parecidas que nunca mais foram utilizadas na vida. A discussão do currículo mínimo necessário nunca chega a alguma conclusão e acaba tendo uma solução política. Numa pesquisa na USP, junto a professores do curso de medicina, quando se perguntou quantas horas aula cada um precisaria para dar bem a sua disciplina, o curso ficaria com a duração de dezoito anos. Logicamente todos ficaram insatisfeitos com o programa apertado em seis anos.

Particularmente, acho que o mais importante na educação é aprender a aprender. Aprender a estudar. Aprender a fazer um projeto, aprender a fazer uma pesquisa, aprender a fazer um relatório. O conteúdo é fluido, pode mudar, pode sofrer atualização diária, enquanto o processo de aprendizagem é um componente de desenvolvimento pessoal que vai capacitando o indivíduo ao enfrentamento das demandas da vida. Alguns currículos são voltados para os conteúdos, outros para os procedimentos de aprendizagem.

 O projeto de pesquisa

A norma brasileira NBR 15287:2011, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), define projeto como sendo a descrição da estrutura de um empreendimento a ser realizado e particulariza o projeto de pesquisa como a parte que compreende uma das fases da pesquisa. É a descrição da sua estrutura (ABNT 2011). Isto resulta que ao perguntar ao aluno como se faz um projeto, ele descreve os itens que devem constar conforme a norma estabelecida. Não está errado, apenas incompleto; apresenta a forma, mas não aborda a essência. Tomando as palavras do próprio texto: “um empreendimento a ser realizado”, falta definir qual seja o empreendimento.

Houaiss diria que projeto é: a “descrição escrita e detalhada de um empreendimento a ser realizado; plano, delineamento, esquema” (HOUAISS 2009). Para tanto é necessário que se tenha em foco o empreendimento, que para Houaiss é a ação de assumir uma tarefa ou responsabilidade. Resta especificar bem a tarefa, eis um problema.

Projeto de pesquisa ou um projeto de intervenção?

No projeto de pesquisa a tarefa principal está no estudo do que já se sabe sobre o assunto, no fazer uma revisão da literatura, um estudo sobre os conhecimentos já publicados. Alguns projetos de pesquisa vão além da pesquisa bibliográfica e partem para o campo utilizando os mais diversos procedimentos de experimentação e/ou de observação: entrevista dirigida, estudo de caso, pesquisa ação/participante, de campo/laboratório, descritiva/ explicativa, documental, empírica/experimental, pura/aplicada, qualitativa/ quantitativa, questionário, dados primários/secundários, método indutivo/dedutivo, etc.  Seja qual for a metodologia de levantamento de dados ou de experimentação, há sempre o sentido de uma busca de informação ou construção de um conhecimento.

No projeto de intervenção a tarefa é a tentativa de aplicação prática do conhecimento existente. O projeto de pesquisa vem necessariamente antes do projeto de intervenção. Para se partir para uma ação é antes necessário um aprofundamento sobre os estudos que discutam as possibilidades, os caminhos e as dificuldades já verificadas nesse tipo de ação. Entendo que na atividade acadêmica, durante a graduação e a pós-graduação, os projetos deveriam ser sempre de pesquisa, pois é o momento de aprender a caminhar nesses caminhos, no entanto existem divergências quanto a isso, alguns professores insistem em mandar o aluno para atividades de intervenção. Na atividade executiva, nas empresas, os projetos devem ser de intervenção, sem descartar a necessidade de uma revisão das publicações, pois a ação que se pretende pode já ter sido descrita, avaliada e/ou reformulada. Em resumo, o projeto de pesquisa organiza o levantamento do conhecimento existente, o projeto de intervenção procura aplicar, na prática, o conhecimento existente a partir da teoria e das experiências já publicadas.

O tema

Ao executivo responsável por algumas coisas na empresa não cabe escolher o problema, pelo contrário, é pressionado pelo problema que pede solução. Resta-lhe apenas equacionar o problema para iniciar um projeto de intervenção. Enquanto isso, a tarefa do estudante, graduando ou pós-graduando, é estudar um tema. Especificamente estudar mesmo, pesquisar bastante e aprender um pouco. Estudando um tema é que se encontra um problema a ser mais bem focado.

Há uma dificuldade geral no exercício da liberdade de escolha, na definição dos rumos da pesquisa por parte do estudante que sempre esteve acostumado a fazer o dever de casa, a estudar a lição determinada pelo professor. Diante à diversidade de possibilidades fica realmente difícil escolher um tema para um projeto de pesquisa.  O que escolher? – um tema que mais domine ou um tema que mais queira aprender?; – o tema que ofereça muito material publicado ou um tema que ofereça poucas publicações?; – um tema clássico ou uma novidade?

Todas as situações apresentam fatores favoráveis e fatores desfavoráveis como em qualquer situação da vida. Estudar um tema que mais domina, do qual pensa que já sabe bastante, pode ser constrangedor ao descobrir que na realidade não sabia quase nada daquilo. Geralmente recomendo que se busque dedicar o tempo da pesquisa num tema de interesse para um futuro próximo, uma especialização ou um novo emprego. Temas que apresentam uma grande quantidade de publicação podem aumentar o volume de trabalho para fazer uma boa revisão bibliográfica, enquanto se um tema com poucas publicações pode representar um assunto que não interessa a quase ninguém. Temas clássicos de pesquisa nunca saem de moda, mas poucos pesquisadores podem ter a capacidade de acrescentar alguma coisa, enquanto temas de novidades podem ser tão etéreos quanto estéreis.

No caso de graduandos recomendo optar por um assunto que possa interessar para uma especialização na pós-graduação. No caso de pós-graduandos depende do projeto acadêmico de cada um e da disponibilidade de orientador. Quanto menos fugir do programa do curso, melhor. Numa pós-graduação em enfermagem, dada a liberdade de escolha para o tema, um galhofeiro intentou pesquisar a criação de grilos em cativeiro.

O problema dentro do tema

… meu propósito não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas somente mostrar de que modo me esforcei por conduzir a minha. (Descartes)

Se o tema é amplo, tal como “Recursos Humanos”, deve ser recortado em subtemas tais como: Recrutamento, Seleção, Treinamento, Remuneração, Administração de Cargos e Salários, Supervisão, Benefícios, etc. Ainda assim fazer uma focalização numa situação recorrente para elaborar um problema a ser estudado. Assim como na matemática, para se resolver um problema, o enunciado do problema tem que ser bem feito e os dados equacionados, para que se possa prosseguir na busca de solução ou entendimento. Não se pode enunciar um problema de RH como “a qualidade da mão de obra”, pois este é um fato, uma constatação, o problema pode estar no recrutamento, na seleção, na remuneração, na administração até mesmo no mercado ou na geografia. Cabe reconhecer qual seja o problema, ou simplesmente escolher uma abordagem sobre a questão de interesse. No dia a dia muita coisa é vivida sem a real noção do que seja o problema interveniente.

Uma situação clínica muito comum é aquela em que o médico pergunta: “Qual é o problema?” A mãe responde: “Meu filho está com febre de 38 graus!” Se o médico diz que a febre não é o problema, a mãe não vai gostar de ouvir isso.  A febre é um sintoma de algo que está criando um problema no organismo, é necessário pesquisar o real problema que afeta o organismo. Na empresa não é diferente, nem sempre os números, os índices, os indicadores, realmente apontam para o problema; geralmente é necessário investigar um pouco mais em torno do que se pensa ser o problema. Costuma-se dizer que uma vez descrito o problema, a metade já está resolvida, a solução já está encaminhada.

Escrever sempre. Uma recomendação básica é que sempre coloque por escrito o problema, seja ele qual seja. Toda formulação do problema pode ser uma formulação provisória, sujeita a críticas e reformulações, mas se não estiver escrito, expresso, não pode receber contribuições. Ao escrever o problema o próprio autor, seja o aluno ou o executivo, pode já ir organizando melhor os pensamentos, fazendo uma análise crítica, melhorando o questionamento. Sem a escrita, sobram são palavras ao vento, pensamentos fluidos que se perdem.

Lee Yacocca, executivo da Ford e depois da Chrysler, dizia que as pessoas falam muito sobre “ideias geniais”, mas que tais ideias não passam pelo crivo do próprio autor quando colocadas por escrito. Quando alguém vinha lhe dizer essas grandes ideias, Lee Yacocca dizia: “Parece uma boa ideia. Escreve um projeto e manda para mim”.  De três em cada quatro casos nunca mais se ouvia falar do assunto. Escrever exige organizar os pensamentos.

Descartes, no seu “Discurso do Método” (publicado em 1637) apresenta os quatro passos que desenvolveu como metodologia de pesquisa:

O primeiro era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal; ou seja, de evitar cuidadosamente a pressa e a prevenção, e de nada fazer constar de meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito que eu não tivesse motivo algum de duvidar dele.

O segundo, o de repartir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las.

O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e presumindo até mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.

E o último, o de efetuar em toda parte relações metódicas tão completas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir.

Podemos resumir em ações tais como: DUVIDE, DIVIDA, ORDENE, REVISE.

Complexidade

Um problema sempre é complexo. Não fosse complexo não seria um problema, não existe um problema simples. Vamos tomar, por exemplo, um problema na administração de recursos humanos: a falta do funcionário ao trabalho. Para o administrador da folha de pagamento pode ser um procedimento simples: faltou, descontou e pronto. O pesquisador de fora da empresa que vier a estudar a “falta ao trabalho” como o objeto de pesquisa, terá sempre um foco específico, pode ter o olhar de sociólogo, psicólogo, assistente social, antropólogo, médico do trabalho, economista, etc. Cada olhar vai produzir uma metodologia de coleta de dados e análise de forma bem diferenciada. Cada olhar vê um problema diferente e analisa coisas diferentes; não haverá uma única solução ou um único entendimento para um problema relativamente simples para o administrador. Uma falta ao trabalho pode até passar despercebida por muitos, mas pode gerar muitos estudos acadêmicos dependendo da pergunta que for feita sobre o problema.

A pergunta

Escolhido o problema a ser estudado, não quer dizer que a pesquisa tenha que encontrar a solução do problema, pode ser uma pesquisa restrita à coleta de dados de sua história recente, aos últimos eventos registrados, ou à sua origem, os dados mais antigos já registrados. Sobre uma ocorrência podem ser elaboradas muitas perguntas tais como:

  • O que é isso?
  • Como ocorreu isso?
  • Como pode ocorrer de novo?
  • Como se preparar para novas ocorrências?
  • Quando ocorreu isso?
  • Quanto tempo demorou a ocorrência disso?
  • Qual é o motivo de tal ocorrência?
  • Quais as possibilidades de novas ocorrências?
  • Por que isso ocorre?
  • Até quando isso pode ocorrer?
  • Em que intensidade tal fato de dá?
  • Onde isso ocorre com maior ou com menor frequência?
  • Quantas vezes isso já ocorreu?
  • Quais as opiniões de A e de B sobre tais ocorrências?
  • Quais os custos para enfrentamento dessas ocorrências?
  • Que resultados podem ser esperados com novas ocorrências?
  • . . .

Numa entrevista, Einstein respondia auma série de perguntas quando foi surpreendido com uma exclamação de uma repórter: “Mestre, você é um sábio, tem respostas para tudo!” Einstein emendou: “Sábio é quem faz as perguntas. Uma boa pergunta já tem metade da resposta.

Os objetivos

Uma vez definida a pergunta, seja ela qual for, o objetivo será buscar uma resposta ou um entendimento para a pergunta. Objetivo é sempre um verbo de ação, tal como Acompanhar, Coletar, Comparar, Completar, Construir, Corrigir, Dirigir, Distinguir, Enumerar, Estabelecer, Exemplificar, Formular, Identificar, Organizar, Participar, Preparar, Realizar, Relatar, etc. Deve-se tomar muito cuidado com determinados verbos tais como “auxiliar, contribuir, estimular, promover”, pois são ações de difícil avaliação. Também não prometer “melhorar, resolver ou concluir” alguma coisa, pois não se tem a certeza de se conseguir tais façanhas. Outra observação é sobre verbos como aumentar ou diminuir que sempre exigem que se estabeleçam as devidas medidas (como metas).

Quando o objetivo é quantificado, passa a ser uma meta – uma quantidade a ser atingida. Por exemplo, se o quero levantar as últimas publicações sobre um assunto, é um objetivo, mas se quero levantar dez publicações sobre o assunto, é uma meta. Meta é sempre expressa em quantidade. Dependendo do caráter do projeto, o objetivo pode ser tratado como meta. Um cuidado interessante é sobre a factibilidade da meta, um valor que possa ser atingido num contexto de realidade. Metas astronômicas são sonhos, não são projetos.

Os americanos trabalham o conceito “smart” para metas.  Smart em inglês pode apresentar diversos significados dependendo do contexto em que for utilizado: inteligente, esperto, elegante, astuto, moderno, vivo, fino, espertalhão, dinâmico, ativo, arguto, agudo, violento, vigoroso, intenso, expedito,  airoso, considerável,  severo,  penetrante,  pungente,  bastante grande, à moda. O que importa aqui é o a acrônimo SMART (specific, measurable, attainable, realistic, time-bound) conceitos que poderiam ser traduzidos em especifico, mensurável, atingível, realista, temporal. Específico porque não há como generalizar a meta, mas definir uma coisa específica; mensurável porque é necessário, sempre, estipular uma quantidade; atingível ou adequado, porque não se deve sonhar, mas trabalhar no plano do possível; realista, dentro dos critérios de realidade, de possibilidades; e, temporal, dentro de um tempo definido, pois meta tem um tempo para começar e um tempo para terminar (um cronograma).

A vantagem de trabalhar com metas ao invés de objetivos é que as metas são mais fáceis de serem avaliadas, uma vez que podem ser comparadas às quantidades estabelecidas e alcançadas. Se estabeleço que meu objetivo é melhorar o meu conhecimento a respeito de um assunto, vai ficar difícil mostrar a diferença entre  começo e o fim do trabalho; agora, se estabeleço que meu objetivo será ler dez publicações sobre o assunto poderei dizer ao final de um tempo que realizei 100% ou 90% da meta.

O mais importante de tudo para a determinação de um objetivo na elaboração de um projeto é a factibilidade. Objetivos devem ser factíveis, realizáveis, palpáveis. Nada de sonhos mirabolantes. Lembro-me de uma aluna que tinha por objetivo dizer como fazer sucesso numa empresa multinacional. Era uma graduanda em administração que nunca tinha trabalhado numa multinacional.

Um objetivo pode ter um caráter geral, por isso chamado de objetivo geral que deve ser dividido em objetivos menores, mais específicos, tantos quantos forem as possibilidades ou as necessidades (lembrar de Descartes, dividir). Por exemplo, se o meu objetivo geral é passear nas férias, os objetivos específicos serão os fracionamentos de todas as ações voltadas para tal passeio: quando, onde, como, quanto, etc.

Do projeto ao relatório

Uma lista de perguntas úteis para pensar um projeto a partir de um problema:

  • “o quê” – Indicar exatamente o que se quer da pesquisa, seja de natureza acadêmica para produção de um texto, seja de natureza empresarial, na busca de uma adequação de procedimentos. Indicar “o quê” exatamente se procura. Expressar, colocar por escrito, a pergunta que se tem em mente.
  • “por quê” – Justificar a necessidade da pesquisa, seja acadêmica por uma questão teórica, seja operacional para solução de alguma situação incômoda.  Na questão acadêmica verificar se já não foi feita, na questão empresarial verificar os custos para ver se vale a pena o esforço.
  • “para quê” – A finalidade de tanto trabalho, seja na academia para construção de um conhecimento, seja na empresa em soluções práticas.
  • “quanto” – Metas são os objetivos quantificados, todo trabalho deve ter em mente a mudança quantitativa seja em conhecimento, seja em ações.
  • “a quem” – A quem se destinam os resultados do trabalho, quem serão os avaliadores.  Daí a necessidade de saber quais são as suas expectativas. Como o professor/orientador exige o trabalho acadêmico, ou o que o executivo da empresa espera do trabalho.
  • “onde” – A localização e abrangência do problema em determinado local ou contexto; o trabalho de pesquisa deve ser bem circunscrito.
  • “como” – A metodologia de pesquisa, as técnicas e etapas para a realização do projeto. No trabalho acadêmico se mostra a familiaridade com os processos de pesquisa, com os recursos metodológicos; na empresa será exigida a experiência anterior e até os resultados de tentativas anteriores como fator de contratação do serviço.
  • “quando” – O cronograma, o tempo e a duração, a distribuição lógica e realista das ações ao longo do tempo. Toda ação deve ser prevista com início, meio e fim. Quanto mais específica melhor para administrar. Os gregos tinham dois deuses para o tempo: o tempo medido sempre igual, frio e impassível, o deus Cronos, donde vem o cronômetro; e, o deus sensível e emocional, quando o tempo passa ao sabor dos desejos e aspirações, o deus Kairós.
  • “quem” – Os recursos humanos, a equipe, se sozinho ou acompanhado de quem, de quantos, a identificação da equipe que vai executar o trabalho de pesquisa. Ideias geniais podem não valer nada se não tem quem as realize. Os ratos tinham um problema: o gato era silencioso demais e surpreendia os ratos. Alguém teve uma ideia genial que resolveria o problema, bastaria dependurar um sino no pescoço do gato. Dai a pergunta: “Quem vai dependurar o sino no pescoço do gato?”.
  • “com quê” – Os recursos materiais e a infraestrutura necessária para a realização, pois nada acontece ao sabor das vontades e das boas intenções. Os recursos humanos e os recursos materiais necessários para a realização.
  • “com quanto” – Os recursos financeiros, a verba, a bolsa, recursos próprios ou tomados de empréstimo. Tudo custa dinheiro.

Sobre o método a ser utilizado na pesquisa

É necessário, seja no trabalho acadêmico, seja no planejamento empresarial, descrever o método a ser utilizado na pesquisa, expor o planejamento de como a pesquisa será feita. Muitos tomam o método como algo rígido, inflexível, definitivo; tomam o método como um processo torturante de seguir detalhes incompreensíveis. A palavra método (meta+odos) significa o caminho para atingir um objetivo, onde meta é o alvo, o objetivo, a questão a ser estudada e odos é o caminho a ser feito para chegar ao objetivo ou meta.

Método é o caminho para se atingir uma meta. Latour (2008) diz que metodologia se parece com um manual de turismo, que sugere as rotas já estudadas e recomendadas. Cabe ao turista seguir ou não, fazer ou não aquelas rotas. Latour compara o método ao fio de Ariadne, que possibilitou o retorno de Teseu na saída do labirinto de Creta, que agora é traço que o pesquisador faz ao marcar o trajeto de sua pesquisa, quando segue os atores em suas tramas para depois voltar e escrever o seu texto. Uma pesquisa acadêmica pode partir de qualquer lugar e chegar a lugar nenhum, como qualquer outro empreendimento. Ao pesquisador novato se recomenda seguir as mesmas trilhas de sempre, os mesmos métodos já testados e aprovados. Assim se aprende a fazer um caminho, a seguir um método. Depois do doutorado, mais experiente, o pesquisador pode ousar, arriscar, inovar; tal como só os atletas mais experientes podem fazer trilhas selvagens de escaladas, de rapel, de montanhismo, etc.

Uma questão científica da descrição do método utilizado na pesquisa é a possibilidade de alguém repetir a pesquisa para confirmar ou refutar os dados conseguidos. O projeto de pesquisa exige a programação das ações a serem realizadas e o relatório da pesquisa (seja um artigo ou uma tese) exige a descrição dos caminhos percorridos.

Considerações finais

Para um melhor aproveitamento do esforço da pesquisa, o projeto deve contemplar com exatidão: o problema, a pergunta, os objetivos. O problema de pesquisa, dentro de um tema escolhido pelo pesquisador, deve ser expresso como um incômodo, algo que se queira resolver ou dele se defender, ou uma curiosidade que se tenha e se queira aprender mais. Definido o problema é que se faz uma pergunta sobre as possibilidades de enfrentamento do problema, ou sobre o ângulo de ataque ao problema, ou sobre uma das inúmeras possibilidades, mas é sempre “uma pergunta” que vai determinar todo o rumo daquela pesquisa. O objetivo geral da pesquisa sempre é buscar respostas à pergunta da pesquisa. Enquanto os objetivos específicos são detalhamentos do objetivo geral. Definido o problema, meio caminho foi andado, pois dele se tira a pergunta e os objetivos.

Obras Citadas

ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. “NBR 15287.” Projeto de pesquisa. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.

BEUREN, Ilse Maria. Como elaborar trabalhos monográficos em contabilidade. 3a.ed. São Paulo: Atlas, 2009.

BOOTH, W.C., G.G. COLOMB, e J.M. WILLIAMS. A arte da pesquisa. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

CERVO, A.L., e P.A. BERVIAN. Metodologia científica. 4a.ed. São Paulo: Makron, 1996.

DESCARTES, Renné. O discurso do método. Paris: http://br.egroups.com/group/acropolis/, 1611.

GIL, A.C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4a.ed. São Paulo: Atlas, 2002.

HOUAISS, Antonio. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

LATOUR, Bruno. Reensamblar lo social: una introducción a la teoria del actor-red. Buenos Aires: Manantial, 2008.

LUNA, S.V. Planejamento de pesquisa – uma introdução. 8a.ed. Campinas: PUC, 2007.

SANTOS, João Almeida, e Domingos PARRA FILHO. Metodologia Científica. 2a.ed. São Paulo: Cengage, 2011.

SEVERINO, A.J. Metodologia do trabalho científico. 22a.ed. São Paulo: Cortez, 2004.

Abstract

Considering the difficulties that many students present when elaborating a research project, this article proposes a methodological discussion, almost a clinical reasoning, for the need of a diagnosis to the problem to be studied as a main point for the preparation of the research question and for set goals. This article tries to point out a clear difference between research project and intervention project. It also supports the research work planning as a primary factor for the ideal realization of academic and business projects. Moreover it tries to show that for a better utilization of research efforts, the project should analyze accurately these three main points: the problem, the question and the goals.

Keywords: methodology – problem – question – goals

Esta entrada foi publicada em Comunicação, Educação e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.