Meu tipo favorito: O alfaiate

 

Foi por volta de 1958, quando apareceu na vila em que eu morava, um alfaiate que contava histórias enquanto alinhavava as calças e os paletós. Eu gostava de sentar ali e ficar observando sua voz macia e bondosa para com todos, inclusive com os moleques. Era dos poucos adultos que davam atenção aos mais novos. Naquele tempo, criança era a primeira que apanhava e a última que falava.

Nativo, esse era seu nome, contava sempre que já havia feito muita coisa nesse mundo.

Em Ribeirão Preto, foi dançarino de boate; toda noite, apesar de trabalhar durante o dia, ia para boate para animar o baile. Tinha um contrato de dançar meia hora, a cada hora. No intervalo, conseguia dormir sentado num sofá na sala da gerência, até ser chamado para a próxima seleção de músicas dançantes; bolero e tango eram as mais frequentes.

Em Santos, descobriu que as empreiteiras estavam ganhando muito com serviços de terraplanagem. Dava para pagar as máquinas com um contrato só. Arrumou empréstimo e entrou na concorrência para um serviço. Ganhou, porque entrou com a proposta que era metade do segundo colocado. Achou que iria ficar rico, mas não sabia que terraplanagem não combinava com chuva. Começou a época de chuvas e ele quebrou por falta de cumprimento de contrato.

Tinha um cliente que era lutador de luta livre, o Carrasco, que lhe dava muito trabalho para fazer um terno, pois todas as medidas eram totalmente fora de padrão, mas pagava bem e compensava os esforços.

Nativo parecia saber de tudo, pois comentava sobre qualquer assunto que surgisse, fosse do noticiário, fosse de histórias do passado. Sempre de voz mansa e argumentos respeitosos; nunca vi discutir com ninguém por divergência de opinião. Mas o que eu achava muito interessante era que ouvia cada moleque com muita atenção. Entrava na conversa e nunca reprimia nem dava conselhos de gente grande.

Até eu fui seu cliente. Quando fui admitido no seminário, veio uma lista de roupas que deveria levar, e entre elas, dois terninhos de brim caqui, no estilo inglês.

Coisa de figurino antigo, disse ele; mas vamos fazer conforme pede o figurino.

Price Charles

Ele tinha razão. No seminário eu era o único que tinha conseguido fazer aquele terninho ridículo; e o pior, tive que usar até não servir mais.

 

Esta entrada foi publicada em Casos e contos e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.