Tudo vale a pena, quando a cabeça não é pequena.
(Fernando Pessoa)
O mundo, em processo de globalização econômica vive constantes e rápidas modificações. Uma queda no valor das ações em Hong Kong, afeta o valor do dólar em Nova York e o valor da prestação da geladeira de um consumidor em Piracaia
A cultura no processo de naturalização dos procedimentos normatizados, sofre o mesmo processo de globalização. Quem usava sapatão e botina, passa a achar necessária e natural a utilização do tênis. Só que ninguém sabe o quanto ganha a televiSão que mostra mais os pés dos atletas (a marca do tênis) do que as mãos, num jogo de basquete.
Darcy Ribeiro usava uma fórmula matematicamente impossível para explicar a cultura: Pegue tudo que aprendeu durante a vida e depois tire tudo o que aprendeu, vai sobrar a cultura. Matematicamente sobraria zero, mas culturalmente sobra o que se processou internamente, seja individualmente seja coletivamente, numa sociedade, numa comunidade.
A cultura parece ser a coisa natural, não porque o seja, mas porque foi naturalizada. Aprendem-se coisas, muitas das quais de claros interesses de quem inventa a moda ou estabelece regras, internalizam-se esses procedimentos como se fossem verdades naturais, como se sempre fora assim. Houve tempo, e não faz tanto tempo, o tênis era proibido na escola, o uniforme exigia sapato preto; hoje ninguém lembra mais disso.
Mudança de hábito, mudança de valores, mudança de procedimentos, acontecem a todo momento em todos os lugares sem que poucos percebam, inclusive na escola.
As razões da escolarização
Houve tempo que as famílias ricas contratavam preceptores, mestres particulares para o desenvolvimento intelectual dos fidalgos. não existia escola para pobres. Até o seminário, formação de padres, era exclusivo de famílias ricas, cada família reservava uma mulher para o convento e um homem para o seminário, era participar do poder eclesiástico. Educação era a transmissão cultural da nobreza, ou da classe política dominante que era praticamente a mesma coisa.
As corporações de ofício foram as primeiras escolas para pobres, mas nem tanto, o aprendizado de marcenaria, forjaria, selaria, construção em geral, era quase exclusivo dos filhos dos profissionais da área. Repetia um pouco o costume de transmissão familiar dos conhecimentos dos mais velhos.
Com a industrialização se percebeu a necessidade de preparar mão-de-obra para o trabalho especializado; não por benesse da classe dominante, mas por questão de custos, economia de matéria prima e melhoria da produtividade.
Coexistiram a escola para os ricos, formação cultural e a escola para os pobres, formação profissional.
Com o desenvolvimento da comunicação, com a crescente globalização do conhecimento, o discurso educacional passa a tratar da “formação do cidadão”. Faz-se necessário perguntar qual o tipo de cidadão que se quer formar.
O cidadão integrado no mundo do consumo, da moda, da economia, da política do Estado? O cidadão crítico, entendedor das regras do jogo, livre para dirigir a própria vida? Independentemente de um ou de outro, há um problema epistemológico a ser considerado – a natureza da cidadania.
Confundem-se individualidade, a pessoa em si, com a cidadania, a pessoa em sociedade.
A felicidade no trabalho
A escola voltada para a formação do cidadão trabalhador, determina como valor máximo, valor natural, o trabalho. A escola do cidadão trabalhador esquece de formar o indivíduo para a vida, pois só considera a pessoa produtiva e consumidora. Os consultórios psicológicos e as clínicas médicas, estão cheios de pessoas infelizes e doentes porque perderam o emprego ou fracassaram na empresa. As pessoas foram educadas a trabalhar, não a viver. Quando o trabalho fracassa, a pessoa se destroça.
“Meu trabalho é minha vida”, é a declaração de quem não tem outra razão para viver. não aprendeu que a profissão é uma atividade de subsistência, não de vida. Desenvolveu somente o lado cidadão, não desenvolveu a instância da individualidade.
O indivíduo e o cidadão
O filósofo Epicuro, por volta dos anos 200, já apontava a necessidade de entender o caráter da política no indivíduo. Dizia que a pessoa tem três situações de vida que precisam ser entendidas para conseguir a felicidade: a política, a amizade e a individualidade.
Na política, a vida na pólis (cidade), a pessoa desempenha um papel determinado pelas regras do Estado. O cidadão é um ser integrado nas normas da sociedade. Nessa instância não há lugar para felicidade, apenas para ações de cidadania, de política, de atitudes sociais, onde a educação é o polimento e respeito s regras de relacionamentos.
Nos jardins da casa, o âmbito da amizade, onde se recebem os amigos mais próximos, há um misto de cidadania e individualidade. As regras sociais São mais frouxas, a pessoa pode se expressar com um pouco de sinceridade, mas não muito, mesmo com os amigos.
No interior da casa, na individualidade, no mundo próprio, com valores e desejos individuais, é que se pode encontrar a felicidade de ser o que se quer ser, sentir a si próprio.
Satisfação ou felicidade
Conforme Epicuro não é possível encontrar felicidade na cidadania, na política, na vida em sociedade. A felicidade é um predicado exclusivo da individualidade.
Na relação com outros, mesmo que seja só mais um, se pode encontrar a satisfação em atingir determinados objetivos, sejam sociais ou até mesmo intimistas, mas é apenas satisfação de objetivos propostos, não é a felicidade, vez que o mundo do outro, os valores do outro, os interesses do outro, São sempre diferentes para cada indivíduo.
(publicado na Folha da Mantiqueira, Piracaia-SP, 1997)