O texto
Esse material é uma adaptação do original de Alex Pound, instrutor de pilotos da Força Aérea Americana. No exercício original, os participantes são informados que caíram num deserto e devem classificar por ordem de importância os quinze itens que sobraram do desastre. Nesta adaptação, os participantes são levados a ler o texto e resolver o problema, sem qualquer outra explicação; qualquer pergunta é respondida com a frase: Leia o texto, tudo está no texto! As dificuldades na interpretação do texto, promovem a discussão sobre os conhecimentos de cada classe, ou grupo, quando se exige entendimento através de uma comunicação escrita.
Experiências desenvolvidas com executivos de multinacionais1 constataram dificuldades de entendimento em simples circulares. Poucos sabem escrever bem, e muitos não entendem bem o que estão lendo. Foi constatado que a primeira ação, da maioria dos executivos pesquisados, é procurar um colega para comentar a mensagem, para confirmar seu entendimento ou mesmo buscar a compreensão.
Em grupos de alunos, isso leva a falar sobre leituras de texto, dificuldades na elaboração do discurso, etc.; em grupos de professores, se fala da dificuldade dos alunos no entendimento das leituras e deles próprios, referindo a instruções que recebem das coordenações e diretorias, os quesitos dos programas, etc. Em todos os grupos se levantam as dificuldades que se apresentam para escrever qualquer mensagem. Aí se discutem teorias da comunicação.
No texto, a chave da questão inicial é o conhecimento de geografia e da velocidade de um avião para saber onde poderiam estar 30 minutos após decolar de Dakar. Em todos os grupos, poucos participantes sabem onde fica Dakar; alguns lembram de deserto, função dos noticiários do “Rally Paris-Dakar” (isto leva à discussão da importância da televisão, no processo de informação e formação do conhecimento). Alguns depreendem a situação pelo quesito: um livro de ‘Animais comestíveis do deserto’. O local seria algum lugar no deserto da Saara, provavelmente na Mauritânia.
A identificação ou localização de um problema, é discutido como ponto básico para qualquer enfoque que se queira dar a uma discussão (qualquer questão); isso permite abordar o tema proposto para o evento.
De imediato se traz à discussão o valor de cada informação específica, para cada assunto específico. No texto, uma informação básica (conforme Alex Pound), é que, atualmente, em qualquer deserto do planeta, o resgate acontece em menos de 48 horas. Isso determina as ações a serem tomadas, tais como não sair do lugar, pois a equipe de resgate já se tem uma indicação da região possível do desastre.
A resposta certa
A melhor alternativa, naquela situação, seria a decisão de não sair do lugar, sabendo que poderia ser resgatado, até em poucas horas, e a escolha dos seguintes itens:
1. Sobretudo de lã – para proteção do corpo contra insolação. A temperatura do corpo é de 36 graus, a temperatura externa é de 50 a 60 graus. O sobretudo é uma barreira. Nesse item, poucos se lembram dos filmes de deserto, das vestimentas usadas por beduínos, tuaregues, etc.; até mesmo das roupas dos cowboys dos desertos do Arizona, do Colorado, do México, etc. Aqui se permite falar sobre hábitos de vestimentas, das necessidades do corpo, etc.
2. Protegido da insolação, cabe hidratar o corpo tomando a água disponível. A maioria sempre pensa em reservar a água para molhar a boca, beber aos poucos, o que está errado. Aqui se permite falar sobre a importância e das funções da água no metabolismo humano.
3. Por incrível que pareça, se acha utilidade para o paraquedas – fazer uma barraca que vai diminuir 30% a 40% o impacto da insolação, além de servir como sinalizador para a busca aérea, pela sua visibilidade (vermelho e branco) e tamanho.
4. Para utilizar o paraquedas, ovalado e cheio de cordões, é necessário recorrer ao canivete.
5. Finalmente, se coloca sob a barraca e, somente com uma mão ao sol, se sinaliza com espelho refletindo a luz do sol. Esse reflexo corresponde a uma luz de 15.000 watts, podendo ser visível até 100 km.
Em doze anos de utilização deste material, nenhuma pessoa ou mesmo um grupo, conseguiu encontrar esta solução para o problema apresentado. Isso reforça a utilidade da ferramenta para levantar possibilidades de discussão sobre qualquer problema, pois mostra a falta de preparo específico da maioria das pessoas, seja do aspecto cognitivo quanto do fator emocional. Assim fica mais fácil entrar no problema proposto para o evento, recorrendo aos itens da dinâmica quando necessário.
O clima de “ignorância” está criado; as pessoas ficam mais receptivas quanto perdem a maioria das defesas baseadas em “pré-conceitos”. Administrando a “ignorância” fica mais fácil recriar um clima de construção de novo conhecimento.
Poder-se-ia pensar nos prejuízos causados pela situação frustrante a que o grupo foi submetido, mas é aí exatamente que se encaixa a valoração de qualquer treinamento:
– Vocês não conseguiram acertar a melhor opção para sobreviver a uma situação como foi colocada. Não se incomodem com isso, ninguém tinha a obrigação de saber, porque nunca foram treinados para tal finalidade, nunca tiveram tais informações específicas. Agora que vamos entrar num processo de treinamento específico, falar de … (o assunto que for abordado), todos estão cientes da necessidade de atentar para cada detalhe, pois disso vai depender a sobrevivência de cada um neste emprego (ou nesta atividade).
Conforme o tempo disponível e o assunto proposto para desenvolvimento no evento, são discutidos os outros quesitos do texto, mostrando sempre o quanto se muda de opinião mediante uma informação específica.
Outros quesitos apresentados
um estojo de primeiros socorros – composto de material para assepsia, destinado a evitar infecção, pouca utilidade tem no deserto que é praticamente “pasteurizado” com 60 a 70 graus durante o dia e menos 10 graus à noite. Nesse clima há muito pouca possibilidade de contaminação por bactéria; um ferimento, um corte, pode secar sem se preocupar com infecção.
um litro de vodka – não se pode consumir destilados sem o devido acompanhamento de muita água. Um copo de vodka vai exigir, no mínimo, um litro de água para equilibrar o organismo.
um livro “Animais comestíveis do deserto” – sabendo que o resgate chegará em menos de 48 horas, a instrução é que não se alimente, pois isso exigiria mais água para ajudar na digestão. Pode-se passar uma semana sem comer, e bem menos tempo sem beber.
um mapa aéreo – são informações sobre frequências de radiofarol conforme a localidade, pouco informam sobre as condições terrestres. Além do que não se deve sair do lugar.
um par de óculos escuros – a claridade do deserto pode ser tão intensa que o melhor é vedar os olhos com panos, para evitar maiores dados aos olhos. Os óculos pouco refrescam.
um quilo de sal – é um item muito escolhido, mas totalmente proibido nessas circunstâncias com tal provisão de água. É recomendado para sobrevivência em selva, quando se pode morrer de desidratação dentro de um rio, onde a ingestão de água contaminada promove diarreia e vômitos, tornando necessária a absorção de sal para retenção do líquido no corpo, ajudando na homeostase.
uma bússola – geralmente muito escolhida na intenção de sair do lugar, o que é totalmente errado.
uma capa plástica para chuva – seria útil para sobrevivência na selva, como forma de conseguir água limpa por decantação do sereno; o que não é o caso no clima seco do deserto.
uma lanterna de 4 pilhas – praticamente sem nenhuma utilidade. Não há busca aérea durante a noite, nem se deve sair a passeio em tais circunstâncias.
uma pistola 45 (carregada) – em situação com possibilidade de conflito, tal como essa, a primeira atitude inteligente é desarmar ou inutilizar qualquer arma que possa ser usada num descontrole emocional.
A pressão
A pressão que se exerce no grupo, a exemplo do processo da dinâmica, é discutida em cada situação conforme o tema colocado para estudo no evento. Discute-se o processo analisando as necessidades, dificuldades ou propriedades de trabalhos sob pressão.
Independentemente ao tema proposto para o evento e às características do grupo, a pressão é um assunto sempre presente em qualquer situação e disso se pode partir para a maioria das discussões. A partir do exemplo do procedimento do instrutor, exigindo resultado imediato em uma situação difícil, podem ser levantados diversos fatores que envolvem a experiência pessoal de cada participante e da vivência do grupo ali formado.
Como enfrentar a situação de pressão, em qualquer situação de vida, é um problema que aflige a maioria das pessoas. A própria situação de grupo, de um instrutor estranho, de uma maneira diferente de abordar problemas, que até podem ser íntimos ou exclusivos daquele grupo, é, por si só, uma situação estressante.
Em todos os eventos realizados, nesta pesquisa e em situações anteriores, pudemos perceber que a “stress” é o assunto mais empolgante, o tema que prende mais a atenção de qualquer público. Além do que o “stress” pode ser associado a todas as atividades de qualquer pessoa.
Aplicação da dinâmica
Tenho utilizado esse expediente sempre nos começos dos cursos e treinamentos para alertar para os pontos importantes a serem trazidos para o evento, realçando que toda informação é importante, um detalhe pode mudar tudo, pois se torna um recurso para solução dos problemas.
Certa feita eu tinha 8 candidatos para duas vagas na gerência de vendas, utilizei a dinâmica para observar a capacidade de cada candidato na condução de soluções dos problemas. Em cursos de oratória é utilizado para observar a capacidade de convencimento de cada participante.
Ao entrar numa certa equipe de trabalho, usei esse processo como minha apresentação profissional na condução de um evento. A gerente gostou tanto que numa próxima reunião de gerências resolveu fazer uso do material; soube que foi um fracasso, pois ela se perdeu totalmente.
Tudo é uma questão de prática e habilidade!